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Destaques Florestal e Celulose Mato Grosso do Sul

Arrendamento para eucalipto muda renda e uso da terra no leste de MS

Expansão da celulose substituiu áreas de pecuária, valorizou propriedades e levou antigos produtores rurais a uma nova relação econômica com suas fazendas

A história da Fazenda Alvorada, no distrito de Garcias, em Três Lagoas, resume parte das mudanças ocorridas no leste de Mato Grosso do Sul nas últimas décadas. A propriedade, antes ligada à pecuária e à exploração de água mineral, hoje tem a maior parcela de sua área arrendada para o cultivo de eucalipto.

Ao Campo Grande News, o fazendeiro Hélcio Kamano, de 65 anos, disse que encontrou uma fonte de água mineral na propriedade em 1998. A descoberta permitiu a criação da Água Labor, marca que abasteceu municípios de Mato Grosso do Sul e São Paulo durante aproximadamente 12 anos.

A atividade foi encerrada depois que a nascente secou. Kamano associa o desaparecimento da água às mudanças ambientais ocorridas no entorno, especialmente à expansão dos plantios florestais. Essa relação de causa e efeito, porém, não está cientificamente comprovada no caso específico da fazenda.

Parte da propriedade começou a ser utilizada para o cultivo de eucalipto a partir de 2005 e atualmente está arrendada à Eldorado Brasil. Dos 490 hectares da Fazenda Alvorada, 290 são destinados à atividade florestal.

Segundo o produtor, o contrato proporciona renda mensal líquida próxima de R$ 24 mil, após o desconto do Imposto de Renda. A situação revela uma contradição reconhecida por ele próprio: a atividade que garante parte de sua receita é também aquela à qual atribui as transformações ambientais que critica.

Da pecuária à renda pela terra

Durante décadas, a economia rural da região esteve concentrada na criação extensiva de gado. Com a instalação das fábricas de celulose e a demanda crescente por madeira, propriedades antes ocupadas por pastagens passaram a ser compradas, arrendadas ou incluídas em contratos de parceria florestal.

Nesse modelo, o proprietário pode deixar de assumir diretamente os custos e os riscos da produção. Em troca da utilização da área, recebe pagamentos da empresa responsável pelo plantio, manejo e colheita do eucalipto.

A mudança valorizou terras, criou uma fonte de renda previsível para fazendeiros e acelerou a substituição das pastagens. Ao mesmo tempo, reduziu a presença de trabalhadores em determinadas áreas rurais e ampliou o controle produtivo exercido pelas empresas do setor.

A participação de gestores de ativos e fundos de investimento acrescentou uma nova camada a esse mercado. Terras e florestas passaram a compor carteiras financeiras administradas por empresas como TTG Brasil, Lacan Florestal e Valor Florestal, conectando a produção regional a investidores nacionais e estrangeiros.

Empresas controlam áreas sem precisar comprá-las

Uma tese de doutorado desenvolvida pelo geógrafo Joser Cleyton Neves, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), analisa como os contratos florestais permitiram a rápida expansão territorial da indústria.

Segundo o pesquisador, o crescimento não ocorreu apenas pela aquisição de propriedades. Arrendamentos e parcerias deram às empresas acesso a grandes extensões de terra sem a necessidade de incorporá-las definitivamente ao patrimônio.

Dados reunidos no estudo indicam que Suzano e Eldorado exploram, juntas, aproximadamente 1,25 milhão de hectares. As áreas incluem propriedades próprias, arrendadas e mantidas por meio de parcerias.

Entre 2020 e 2023, as duas companhias registraram R$ 5,14 bilhões em despesas com arrendamentos, conforme os balanços empresariais analisados pelo pesquisador. A Suzano respondeu por R$ 4,09 bilhões, montante que inclui operações realizadas em outras regiões do país. A Eldorado contabilizou R$ 1,04 bilhão.

Os números mostram que a cadeia florestal também distribui recursos aos proprietários rurais, embora a concentração fundiária faça com que os maiores contratos permaneçam nas mãos de um grupo relativamente pequeno.

Concentração facilitou expansão

A estrutura agrária do leste de Mato Grosso do Sul já era concentrada antes da chegada das grandes fábricas. De acordo com o levantamento acadêmico, propriedades com mais de mil hectares representam 13,9% dos estabelecimentos, mas ocupam 75,8% da área.

Quando consideradas as fazendas com mais de 500 hectares, 24,2% dos imóveis concentram 88,3% das terras. Essa configuração permitiu que as empresas ampliassem rapidamente sua base florestal por meio de negociações com um número limitado de grandes proprietários.

A área plantada cresceu em ritmo acelerado. Dados estaduais apontam que Mato Grosso do Sul passou de 341 mil hectares de florestas plantadas, em 2010, para mais de 1,6 milhão em 2024. Em 2025, a estimativa já alcançava aproximadamente 1,8 milhão de hectares.

O governo estadual sustenta que grande parte da expansão ocorre sobre pastagens degradadas. O setor também ganhou peso na economia, com geração estimada de 27 mil empregos diretos e indiretos e participação de 17,8% no PIB industrial, segundo dados divulgados pela Semadesc.

O avanço dos eucaliptais também aumentou os questionamentos sobre os efeitos cumulativos da atividade nas microbacias, na biodiversidade e nas comunidades rurais. Relatos de produtores mencionam redução de nascentes, mudanças na presença de animais silvestres e desaparecimento de moradores do campo.

Essas percepções precisam ser confrontadas com levantamentos hidrológicos, ambientais e sociais de longo prazo. A ocorrência simultânea de plantios e redução da disponibilidade de água, por exemplo, não basta para demonstrar que um fenômeno provocou o outro.

O setor argumenta que utiliza áreas anteriormente degradadas, mantém reservas ambientais e adota tecnologias para elevar a produtividade sem ampliar proporcionalmente a ocupação territorial. Pesquisadores e moradores, por outro lado, defendem o acompanhamento dos impactos em escala regional, e não apenas dentro de cada propriedade ou empreendimento.

Três Lagoas, Água Clara, Aparecida do Taboado, Bataguassu, Brasilândia, Inocência, Ribas do Rio Pardo, Santa Rita do Pardo e Selvíria formam o território oficialmente denominado Vale da Celulose. Nesses municípios, a discussão deixou de ser apenas sobre quanto o setor produz e passou a incluir outra questão: como conciliar os ganhos econômicos com a preservação dos recursos naturais e da vida rural.

Com informações do Campo Grande News

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