Por Guilherme Soares Dias
Chegar na Ilha do Marajó, no Pará, já parece estar no destino final de uma longa viagem. Mas, para ir ao Quilombo das Mangueiras, em Salvaterra, ainda é preciso seguir caminho. Barco, estrada, barco novamente e mais um trecho de estrada. O percurso faz parte da experiência e, de certa forma, prepara a gente para desacelerar e olhar para o território com outros olhos.
O destino é uma comunidade quilombola formada por mais de 600 pessoas há cerca de 200 anos, descendentes daqueles que tiveram a coragem de fugir da escravização e construir, em meio às paisagens do Marajó, uma nova possibilidade de vida.
“Aprendi que coragem também é fugir. Foi assim com os nossos que saíram da escravização e aqui chegaram. Assim como resistir hoje aqui no território também é um ato de coragem”, diz Noemi Barbosa, uma das lideranças do quilombo e responsável pelo Ateliê Sementes do Quilombo, que recebe turistas e mantém uma pequena loja com a produção feita na comunidade.
O Quilombo das Mangueiras é, portanto, um lugar onde a resistência não está apenas no passado. Ela continua presente na forma como a comunidade preserva seus saberes, celebra sua cultura, cuida da natureza e cria maneiras de receber quem chega.

Vivências
Aqui o turismo acontece de um jeito diferente. Não é apenas chegar, tirar algumas fotos e ir embora. A proposta é vivenciar. É passar um tempo no território, ouvir as histórias, experimentar os sabores, acompanhar atividades e perceber como os conhecimentos ancestrais continuam fazendo parte da vida cotidiana.
A experiência foi promovida pela Quase Nativa, em uma imersão que coloca a comunidade no centro da narrativa. Quem visita tem a oportunidade de conhecer o quilombo a partir do olhar de quem vive ali e, principalmente, de entender que a maior riqueza de um território não está apenas nas suas paisagens. Está nas pessoas
Entre uma conversa e outra, a cultura aparece de diferentes maneiras. Tem carimbó, boi-bumbá e oficinas que permitem colocar a mão na massa e aprender a fazer bonecas de pano, chamadas de abayomis, que carregam a ancestralidade de quem veio em navios negreiros do continente africano e passou a sabedoria de geração em geração.
Mas o que torna a experiência especial é justamente a possibilidade de sair do lugar de espectador e participar da rotina.
É possível acompanhar a comunidade em atividades ligadas ao território, conhecer de perto os búfalos, animais que fazem parte da paisagem marajoara, andar a cavalo, navegar e tomar banho nos igarapés. São momentos que ajudam a lembrar que viajar pode ser simplesmente parar, respirar e estar presente.

Gastronomia
Uma das experiências que mais chamam a atenção é a possibilidade de conhecer o turu, molusco encontrado em áreas de mangue e muito presente na culinária amazônica. A experiência de acompanhar a coleta e depois provar o alimento aproxima o visitante dos conhecimentos tradicionais do Marajó. E há ainda a comida.
Experimentar as delícias preparadas na comunidade é ter acesso a uma comida caseira, com alimentos plantados e colhidos na região e sem agrotóxicos. A mesa vira espaço de encontro, conversa e troca. A hospitalidade não aparece como um serviço padronizado, mas como uma maneira de receber, compartilhar e contar histórias: fazemos parte dessa mesa farta de alimentos e narrativas.
É nesse contato que o afroturismo ganha sentido e tem presente um dos seus significados: o afeto.

Comunidade é protagonista
Conhecer uma comunidade quilombola é reconhecer que esses territórios guardam histórias, conhecimentos e formas de viver que foram fundamentais para a construção do Brasil e que seguem sendo preservadas, apesar das dificuldades. Só na Ilha do Marajó são 18 quilombos.
É importante lembrar que no afroturimo as comunidades não são cenário, mas protagonistas da viagem.
O que nos leva a concluir que as maiores belezas do Quilombo das Mangueiras são o encontro, o aprendizado e o fortalecimento de quem há centenas de anos constrói essa história e conhecimentos. Viva o turismo de base comunitária, viva o afroturismo!
- O jornalista viajou a convite da Quase Nativa – Expedição Amazônia Paraense, que está sendo potencializado por meio de uma parceria com o SER, por meio da Chamada Pública Aipê — Aliança pela Inclusão Produtiva. A iniciativa conta com o apoio de parceiros fundadores: BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Fundação Arymax, Fundação Tide Setubal, Instituto Humanize, Instituto HEINEKEN, Instituto Votorantim e Santander.


