Expansão da oferta nacional de gás reduz risco de desabastecimento e fortalece a expectativa de funcionamento da fábrica de fertilizantes em 2029
Depois de permanecer mais de uma década paralisada, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3) voltou a movimentar trabalhadores, fornecedores e expectativas em Três Lagoas. A retomada das obras representa apenas a primeira etapa de uma transformação econômica que poderá ganhar outra dimensão quando a fábrica entrar definitivamente em operação, prevista para 2029.
O funcionamento da unidade depende diretamente do gás natural. Diferentemente de outras indústrias, que utilizam o combustível principalmente para gerar calor ou energia, a UFN3 precisa do gás como matéria-prima para fabricar amônia e ureia.
Projetada originalmente para receber gás da Bolívia, a fábrica agora poderá ser abastecida também pela produção brasileira. A oferta nacional deve avançar nos próximos anos com novos projetos no pré-sal, na Bacia de Campos e nas regiões de Sergipe e Alagoas.
Essa mudança ganha importância porque o fornecimento boliviano pelo Gasoduto Bolívia-Brasil, o Gasbol, está em trajetória de queda. A estrutura permite tecnicamente a reversão do fluxo, levando gás disponível na malha brasileira até Três Lagoas, caso as importações continuem diminuindo ou sejam encerradas.
A alternativa reduz um dos principais riscos para a operação da UFN3, mas não elimina todos os desafios. O abastecimento ainda dependerá da contratação do combustível, do preço praticado, da capacidade disponível na malha e dos acordos necessários para o transporte até a fábrica.
Impacto começa nas obras e alcança a economia local
Com aproximadamente 81% da estrutura concluída, a UFN3 receberá cerca de US$ 1 bilhão em novos investimentos para chegar à etapa operacional. A Petrobras estima a geração de até 8 mil empregos durante a conclusão do empreendimento. A Prefeitura trabalha com uma projeção próxima de 7 mil postos diretos e indiretos, além de quase 4 mil oportunidades de capacitação profissional.
A diferença entre as estimativas decorre dos critérios utilizados por cada instituição, mas ambas apontam para uma mobilização de grande escala no mercado de trabalho local.
Esse contingente deverá ampliar a procura por profissionais da construção civil, montagem industrial, soldagem, elétrica, instrumentação, mecânica, segurança do trabalho, logística e administração. Parte das vagas exigirá formação técnica específica, colocando as instituições de ensino profissionalizante no centro da preparação da mão de obra.
Os efeitos não ficam restritos ao canteiro. A chegada de trabalhadores tende a aumentar o movimento em hotéis, imóveis para locação, restaurantes, supermercados, transporte e prestação de serviços. Empresas locais também podem disputar contratos de manutenção, alimentação, limpeza, locação de equipamentos, fornecimento de materiais e apoio logístico.
O crescimento repentino, porém, exige planejamento. Uma obra desse porte pode pressionar os preços dos aluguéis, o trânsito, a rede de saúde, o transporte coletivo e outros serviços públicos. O desafio para Três Lagoas será transformar o movimento temporário da construção em desenvolvimento permanente, evitando que os ganhos fiquem concentrados apenas no período das obras.
Quando a fábrica começar a operar, a dinâmica econômica muda. O volume de trabalhadores será menor que no pico da construção, mas os empregos industriais tendem a ser mais estáveis, especializados e integrados a uma cadeia contínua de fornecedores.
A produção também deverá gerar circulação permanente de cargas, contratos de manutenção, demanda por serviços técnicos e novas oportunidades para transportadoras, empresas de engenharia, laboratórios e prestadores ligados à indústria química.
Para o Município, esse movimento pode ampliar a arrecadação de tributos incidentes sobre serviços e fortalecer o comércio. O tamanho efetivo do retorno fiscal, contudo, dependerá do modelo de contratação, da origem dos fornecedores e da distribuição dos impostos entre Município, Estado e União.
De obra paralisada a polo nacional de fertilizantes
A UFN3 terá capacidade nominal para fabricar 3,6 mil toneladas de ureia e 2,2 mil toneladas de amônia por dia. Do total de amônia, aproximadamente 180 toneladas diárias poderão ser comercializadas separadamente.
Em um ano de operação contínua, a capacidade teórica de ureia se aproxima de 1,3 milhão de toneladas. A produção colocará Três Lagoas entre os pontos estratégicos da indústria brasileira de fertilizantes e poderá reduzir em cerca de 12% a necessidade nacional de importação do produto.
A escala ajuda a explicar por que o abastecimento de gás é decisivo. Para trabalhar dentro da capacidade projetada, a fábrica deverá consumir entre 2,3 milhões e 2,5 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia.
A redução das entregas bolivianas chegou a alimentar dúvidas sobre o futuro da unidade. Em um cenário anterior, chegou-se a considerar que o complexo pudesse funcionar inicialmente apenas como misturador de fertilizantes, sem fabricar amônia e ureia. A expansão da produção nacional oferece uma saída para preservar a finalidade industrial original do empreendimento.
A localização favorece o projeto. Três Lagoas está próxima de grandes mercados consumidores de fertilizantes em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Paraná e São Paulo. Essa posição pode reduzir distâncias logísticas e aumentar a confiabilidade do abastecimento às regiões produtoras de milho, cana-de-açúcar, café, trigo e algodão.
A ureia também possui aplicação na pecuária como suplemento para ruminantes, aproximando a fábrica de outra atividade econômica relevante para Mato Grosso do Sul.
A presença da UFN3 ainda amplia a diversidade industrial de Três Lagoas. O município já ocupa posição de destaque na produção de celulose e passa a incorporar uma cadeia ligada à química, ao gás natural e ao agronegócio. Essa combinação reduz a dependência de um único segmento e pode atrair negócios complementares.
A retomada foi oficializada em junho, com a assinatura de contratos para a continuidade dos trabalhos. Segundo a administração municipal, mais de R$ 3 bilhões já haviam sido aplicados antes da paralisação, iniciada em 2015.
Mais que terminar uma construção, o desafio será fazer a unidade produzir de maneira competitiva. Isso exige gás disponível, preço adequado, logística eficiente e integração com os compradores.
Se essas condições forem atendidas, a UFN3 poderá representar para Três Lagoas muito mais que uma fábrica retomada: será uma fonte permanente de empregos qualificados, renda, arrecadação, contratos empresariais e diversificação econômica. O gás nacional, nesse cenário, deixa de ser apenas um insumo e passa a funcionar como a peça capaz de manter em movimento um novo ciclo industrial no município.


