Uma ampla investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul colocou no centro das apurações um grupo suspeito de fraudar contratos públicos para a aquisição de livros paradidáticos e desviar recursos públicos. A Operação Gutenberg, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), resultou no cumprimento de 12 mandados de prisão preventiva e dezenas de mandados de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás.
As investigações apontam que a organização criminosa teria movimentado mais de R$ 27 milhões por meio de contratos considerados irregulares com administrações municipais. Segundo o Ministério Público, o esquema envolvia empresários, agentes públicos e pessoas ligadas aos investigados, com suspeitas de crimes como fraude em licitações, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Entre os presos estão empresários, uma médica, servidores públicos, um ex-prefeito, advogados e familiares apontados como integrantes da estrutura investigada. Conforme o MPMS, o grupo possuía base em Campo Grande e atuava em diferentes municípios sul-mato-grossenses.
Entre os detidos estão os empresários Paulo Rogério de Melo e Douglas Henrique de Melo; Rossana Paroschi Jafar, sócia de uma gráfica da Capital; Felipe Paroschi Jafar, servidor comissionado da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul); a médica e empresária Olívia Jafar; o servidor da Secretaria de Estado de Saúde, Ed Carlo Britto Burgatt; a empresária Jéssyca Burgatt; o ex-prefeito de Fátima do Sul, Júnior Vasconcelos; o advogado Gabriel Taquino de Paula; além de Francisco Anizio dos Santos, Joatan Gomes Peixoto e Matheus Oliveira Peixoto.
O Ministério Público, no entanto, não detalhou a participação individual de cada investigado nem especificou o papel desempenhado por cada um no suposto esquema.
As diligências ocorreram em Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho e Porto Murtinho, além das cidades de São Paulo (SP) e Abadiânia (GO). Ao todo, foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão, além das ordens de prisão.
Durante a operação, os investigadores apreenderam cerca de R$ 69,8 mil em espécie e US$ 907 na residência de um dos alvos da investigação.
Segundo o Ministério Público, a organização utilizava contratos para fornecimento de livros paradidáticos como forma de direcionar recursos públicos. A apuração também aponta que servidores da área da saúde condicionavam a autorização de exames, cirurgias e internações na rede estadual à aquisição dos livros comercializados pelo grupo, mecanismo que teria servido para beneficiar o esquema.
Ainda conforme as investigações, os valores recebidos pelos contratos eram posteriormente distribuídos entre integrantes da organização, agentes públicos e empresas, com o objetivo de ocultar a origem dos recursos.
O nome da operação faz referência a Johannes Gutenberg, inventor responsável pela popularização da impressão de livros. Para o Ministério Público, a escolha simboliza justamente o uso da comercialização de livros como instrumento para conferir aparência de legalidade às fraudes investigadas.
Em nota, o Governo de Mato Grosso do Sul informou que colaborou com a operação por meio das forças de segurança e determinou o afastamento ou exoneração dos servidores investigados, além da abertura de auditoria para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao Executivo estadual.
A Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS) informou que acompanhou as diligências envolvendo advogados e afirmou que adotará as medidas cabíveis, respeitando o direito à ampla defesa e ao contraditório.
A defesa do advogado Gabriel Taquino de Paula declarou que somente irá se manifestar após ter acesso aos autos da investigação. Já o deputado estadual Jamilson Name afirmou, por meio de nota, que não possui relação com os fatos investigados e ressaltou que o ex-prefeito Júnior Vasconcelos exerce função administrativa em seu gabinete, defendendo o respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência.


