Entidade criada em memória do “Bom Sujeito” procura voluntários para promover debates sobre cuidados paliativos, dignidade e o valor de viver
Tiago Martins Pitthan decidiu não faltar à própria despedida. Cercado por familiares, amigos, samba, cerveja e muitas histórias, o advogado, turismólogo e produtor cultural transformou o que chamou de “velório em vida” em uma celebração pública da existência. Agora, dois meses após sua morte, a forma corajosa como encarou o câncer inspira uma nova iniciativa em Campo Grande.
Amigos e familiares anunciaram a abertura do voluntariado para o Instituto Bom Sujeito, criado para preservar o legado de Tiago e acolher pessoas que enfrentam doenças graves, processos de luto e reflexões sobre a finitude.
A entidade pretende atuar na conscientização sobre cuidados paliativos, qualidade de vida e morte digna. O nome faz referência à maneira como Tiago se apresentava e ficou conhecido nas redes sociais: “Bom Sujeito”.
“O Instituto existe em homenagem ao Tiago Pitthan, que teve câncer, mas nunca deixou o câncer tê-lo. Hoje estamos dando os primeiros passos. E precisamos de voluntários que se identifiquem com essa causa, entendam essa mensagem e queiram ajudar a levá-la adiante”, informou a organização.

Uma despedida que celebrou a presença
Diagnosticado com um câncer agressivo no estômago no início de 2024, Tiago passou por tratamentos de quimioterapia e imunoterapia. Quando soube que a doença não tinha cura, decidiu falar abertamente sobre câncer, morte e despedida — palavras frequentemente evitadas por familiares e pela sociedade.
A inspiração para o velório em vida surgiu após a morte de seu pai. Ao acompanhar a cerimônia, repleta de amigos, lembranças e histórias, Tiago percebeu que justamente a pessoa homenageada não estava ali para receber os abraços e ouvir o que todos tinham a dizer.
Foi então que decidiu organizar a própria despedida ainda em vida. “Eu não queria faltar ao meu velório”, explicou na época.
A celebração ocorreu em 30 de maio. Inicialmente pensada para cerca de 50 pessoas próximas, acabou reunindo centenas de participantes. Vestindo uma camisa tropical colorida e chapéu-panamá, Tiago dançou, abraçou amigos, ouviu declarações e celebrou ao lado do irmão gêmeo.
A irreverência apareceu até na trilha sonora, que incluiu a música “Morto Muito Louco”. As imagens circularam pelas redes sociais, chegaram a veículos nacionais e internacionais e transformaram aquela festa particular em uma reflexão coletiva sobre como viver quando o tempo se torna limitado.
Mais do que desafiar o tabu da morte, Tiago insistia que sua vitória não dependia da cura. Para ele, vencer significava continuar vivendo todos os dias possíveis. Em uma de suas últimas mensagens, declarou estar em paz e afirmou ter tido uma vida boa.
Tiago morreu em 5 de julho, aos 47 anos, em Campo Grande. Na despedida definitiva, foi sepultado com a mesma camisa tropical e o chapéu usados na celebração, conforme havia pedido. Sua história ganhou repercussão internacional e levou o debate sobre cuidados paliativos e dignidade no fim da vida para além dos consultórios e hospitais.
Instituto procura voluntários
O Instituto Bom Sujeito nasce sustentado por dois conceitos. O primeiro é “viver”, a partir da compreensão de que limitações impostas por uma doença não eliminam o direito à qualidade de vida, à dignidade e ao respeito.
O segundo é “encarar”: falar sobre morte, cuidados paliativos e despedidas sem transformar esses assuntos em tabus. A proposta é oferecer informação e acolhimento para pessoas que enfrentam o adoecimento ou a perda de alguém próximo.
A organização busca voluntários dispostos a colaborar com ações relacionadas ao acolhimento, aos cuidados paliativos e à valorização da vida. Ainda em fase inicial, o instituto pretende reunir pessoas que se identifiquem com a mensagem deixada por Tiago e possam ajudar a transformá-la em projetos e iniciativas permanentes.
Os interessados podem preencher o formulário de voluntariado ou entrar em contato pelo WhatsApp, no número (67) 9191-9085.
O velório em vida terminou, mas a conversa provocada por Tiago continua. O Instituto Bom Sujeito nasce justamente para evitar que sua mensagem seja encerrada com a despedida: viver até o último dia possível e permitir que a morte seja tratada com humanidade, informação e dignidade.


