A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Três Lagoas, nesta quinta-feira (25), para marcar a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-3), também trouxe à tona uma antiga reivindicação de empresários que afirmam ter sido prejudicados pela paralisação do empreendimento, ocorrida em 2014.
Representados pelo advogado Humberto Garcia de Oliveira, ex-fornecedores e prestadores de serviços ligados à construção da unidade divulgaram uma carta aberta na qual cobram uma solução para débitos que, segundo eles, permanecem sem resolução há mais de uma década.
De acordo com o documento, mais de 136 empresas de Três Lagoas teriam sido afetadas pela interrupção das obras. O grupo estima que o passivo financeiro ultrapasse R$ 36 milhões, envolvendo fornecedores de diferentes segmentos que atuaram durante a execução do projeto.
Os empresários argumentam que participaram diretamente da construção da planta industrial antes da suspensão dos trabalhos e alegam que muitos enfrentaram graves dificuldades financeiras após a interrupção do empreendimento, incluindo fechamento de empresas, perda de patrimônio e endividamento.
A manifestação foi divulgada justamente no momento em que a Petrobras e o Governo Federal anunciam a retomada definitiva da UFN-3, considerada uma das principais obras industriais do país. Os credores defendem que a retomada do projeto também deveria abrir espaço para o debate sobre as pendências financeiras deixadas no passado.
Segundo o advogado, o objetivo da carta é ampliar a visibilidade do tema e buscar apoio da opinião pública para que seja construída uma solução negociada para os empresários que afirmam ter sido impactados pela paralisação da obra.
Até o momento da publicação desta reportagem, não havia posicionamento oficial da Petrobras sobre as reivindicações apresentadas no documento.

Confira a carta aberta enviada ao Atualiza MS na íntegra:
A Retomada da UFN3 e o Grito dos Invisíveis: Convocamos a Imprensa a Romper o Silêncio que nos Sufoca há Doze Anos
1. UM APELO À QUARTA FORÇA: POR QUE RECORREMOS À IMPRENSA?
Neste próximo dia 25 de junho de 2026, enquanto os holofotes se voltaram para Três Lagoas para celebrar a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), dirigimo-nos não às autoridades que nos ignoram, mas à Imprensa Brasileira. Convocamos os jornalistas e veículos de comunicação a darem voz a uma causa que foi deliberadamente enterrada sob o concreto de investimentos bilionários. Somos invisíveis para o poder público, mas não podemos ser invisíveis para a verdade. Pedimos que a imprensa seja o megafone de centenas de famílias que foram ignoradas por todos que um dia nos pediram confiança.
2. A RADIOGRAFIA DO ABANDONO: 12 ANOS DE INJUSTIÇA
É preciso que o Brasil conheça os números da destruição que o discurso oficial tenta esconder. Há exatos 12 anos, o colapso da obra deixou um rastro de ruína em Três Lagoas:
• O Contingente de Vítimas: Mais de 136 empresas locais — de lavanderias a fornecedores de insumos — que acreditaram na solidez do projeto e na garantia da Petrobras.
• O Passivo Histórico: O valor devido ao empresariado local somava R$ 36 milhões. Um montante que representa a diferença entre a sobrevivência e a falência total.
• A Obra Quase Pronta: O empresariado local entregou 81% da execução da planta. O Estado recebeu o benefício, mas os executores receberam o calote.
• O Impacto Humano: Assistimos a empresários de honra falecerem sem receber um centavo, enquanto outros viram o patrimônio de uma vida ser liquidado por dívidas geradas por este calote institucionalizado.
3. O EIXO DA OMISSÃO: TOTALMENTE IGNORADOS POR TODOS
A nossa maior dor não é apenas a dívida financeira, mas a constatação de que fomos totalmente ignorados por todos os entes que deveriam zelar pela justiça e pelo desenvolvimento:
Petrobras: A estatal nunca reconheceu a dívida de forma digna. Nunca fez um gesto concreto de conciliação. Trata os credores locais meramente como um “passivo judicial” e nos ignora solenemente, enquanto anuncia lucros recordes e novos aportes de US$ 1 bilhão.
Governo Federal (União): Mesmo com a presença do Presidente da República no canteiro de obras, hoverá alguma menção, um aceno ou uma proposta aos credores. O silêncio absoluto do Governo Federal é uma afronta a quem sustenta a obra no início.
Governo do Estado de MS: Permanece omisso. Nunca pautou o assunto com a seriedade devida, nunca intercedeu junto à Petrobras para proteger o empresariado sul-mato-grossense.
Prefeitura e Legislativo de Três Lagoas: O silêncio é ensurdecedor. Abandonaram os empresários que geram empregos e pagam impostos na cidade. Ninguém nos vê nos corredores do poder municipal.
4. A CONTRADIÇÃO E O CLAMOR POR DIGNIDADE
A Petrobras ampara-se em tecnicismos para fugir da responsabilidade solidária. É a aplicação da lógica que já denunciei: a justiça seletiva que pune o pequeno. No cenário da UFN3, revivemos a triste analogia das “lavanderias” e dos “ladrões de Cristo”, onde quem serviu com honestidade é crucificado pelo sistema.
O silêncio é nossa única resposta. É inadmissível que se injete 1 bilhão de dólares para concluir o que nós ajudamos a erguer, enquanto nos negam os R$ 36 milhões históricos que nos pertencem por direito. Falta, acima de tudo, vergonha na cara das autoridades envolvidas.
5. CONCLUSÃO: A ÚLTIMA ESPERANÇA
Diante do abandono por parte de todos os poderes constituídos — Executivo, Legislativo e a própria estatal — a Imprensa é a nossa última esperança de dar visibilidade a esta injustiça. Não pedimos favores, pedimos que a luz da verdade seja jogada sobre este cemitério de empresas. Três Lagoas não pode aceitar um progresso erguido sobre o cadáver financeiro de seus próprios filhos.
Que esta carta ecoe nos jornais, rádios e televisões de todo o país. Se os governantes escolheram o silêncio, que a opinião pública escolha a indignação.
HUMBERTO GARCIA DE OLIVEIRA
Advogado — OAB/MS 8180-a
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