A cada R$ 100 arrecadados, cerca de R$ 86 foram destinados à folha de pagamento e ao funcionamento da administração; cenário reduz a autonomia para financiar novos investimentos
O orçamento de Mato Grosso do Sul chegou ao fim de agosto com pouco espaço entre o dinheiro que entra e as despesas necessárias para manter o Estado funcionando. De cada R$ 100 arrecadados, aproximadamente R$ 60 foram consumidos por gastos com pessoal e outros R$ 26 pelo custeio da administração pública.
Na prática, sobraram apenas R$ 14 para investimentos, pagamento da dívida e outras obrigações. Os dados fazem parte do relatório do quarto bimestre de 2026, divulgado pelo Tesouro Nacional com informações fiscais das 27 unidades da Federação.
O indicador que mede a capacidade de o governo economizar parte das receitas regulares ficou em 7,1% da receita corrente líquida. Foi o segundo menor percentual do país, superior apenas ao registrado por Tocantins, de 6,7%.
Essa “poupança” representa o valor que permanece disponível depois do pagamento das despesas recorrentes. Quanto menor o percentual, mais difícil se torna financiar obras, ampliar serviços ou iniciar novos projetos sem recorrer a transferências federais, convênios ou empréstimos.
Para efeito de comparação, Espírito Santo e Amapá apresentaram percentuais próximos de 30%, indicando uma margem financeira significativamente maior.
Folha e custeio absorvem a maior parte da receita
As despesas com servidores ativos, aposentados, pensionistas e demais compromissos relacionados ao funcionalismo consumiram 60% da receita total de Mato Grosso do Sul. O resultado colocou o Estado entre os três com maior comprometimento proporcional do caixa nessa área.
Outros 26% foram destinados ao custeio, que inclui contratos, energia elétrica, materiais, manutenção de prédios, serviços terceirizados e demais gastos necessários para conservar a estrutura pública em funcionamento.
Apesar da redução da folga financeira, o Estado manteve investimentos equivalentes a 10% da receita bruta. Outros 3% foram usados no pagamento de juros, amortizações e demais compromissos relacionados à dívida pública.
O resultado mostra que Mato Grosso do Sul continua investindo, mas dispõe de pouca margem para sustentar esse ritmo exclusivamente com recursos próprios. Caso as despesas permanentes cresçam mais rapidamente que a arrecadação, o governo poderá depender cada vez mais de financiamentos e recursos externos.
Déficit e Previdência aumentam pressão sobre o orçamento
As despesas estaduais somaram R$ 19,47 bilhões até agosto. A Previdência respondeu por 22% do total, seguida pela educação, com 17%. Saúde, segurança pública e transporte representaram, cada um, 9% das despesas liquidadas.
O percentual de 9% registrado na saúde foi o menor entre os estados dentro desse recorte específico do Tesouro. O dado representa a participação da área no total das despesas executadas e não significa, isoladamente, descumprimento do investimento mínimo exigido pela Constituição.
O regime previdenciário estadual também apresentou resultado negativo próximo de R$ 1,02 bilhão, equivalente a cerca de 7% da receita corrente líquida. Esse déficit precisa ser coberto pelo Tesouro estadual e amplia a disputa por recursos com outras áreas da administração.
Outro sinal de alerta aparece no resultado primário, que compara receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida. O déficit acumulado passou de aproximadamente R$ 100 milhões, em agosto de 2025, para R$ 710 milhões no mesmo período deste ano.
A dívida consolidada de Mato Grosso do Sul, por sua vez, cresceu 13% entre dezembro de 2025 e agosto de 2026.
Os números não indicam falta imediata de recursos ou interrupção de serviços, mas mostram que o Estado perdeu capacidade de gerar sobra financeira. Para recuperar espaço no orçamento, será necessário fazer a arrecadação avançar acima das despesas permanentes, controlar o custeio ou rever compromissos que crescem continuamente.
O cenário também deverá influenciar as discussões sobre o orçamento de 2027. Com a maior parte da receita comprometida antes mesmo de novos projetos serem considerados, preservar investimentos em infraestrutura, saúde, educação e segurança exigirá maior controle das despesas e definição mais rigorosa das prioridades.

