Presidente assina contratos para conclusão da fábrica da Petrobras, anuncia qualificação de trabalhadores e reforça projeto que promete transformar a economia em Mato Grosso do Sul
Três Lagoas voltou a ocupar, nesta quinta-feira (25), um espaço estratégico no mapa da indústria brasileira. Doze anos depois da paralisação da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou no município para oficializar a retomada do empreendimento, considerado um dos maiores investimentos industriais em andamento no país.
A agenda presidencial foi marcada por uma visita ao canteiro de obras da fábrica, seguida da assinatura dos contratos com as empresas responsáveis pela conclusão da unidade. O ato representa o início efetivo de uma nova etapa para um projeto que permaneceu interrompido por mais de uma década e que agora volta ao centro da política nacional de reindustrialização.
Ao lado da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, da ministra do Planejamento, Simone Tebet, além de parlamentares da bancada federal e autoridades estaduais e municipais, Lula reforçou o compromisso do governo federal com a retomada da produção nacional de fertilizantes.
A visita ocorre em um momento simbólico para Três Lagoas. Nos últimos dias, a cidade já vivia os primeiros reflexos da reativação do empreendimento, com empresas iniciando a mobilização de equipes, abertura de vagas de emprego e preparação da estrutura que dará suporte às obras.

Críticas à demora na retomada das obras na fábrica de Três Lagoas
Durante seu pronunciamento, o presidente criticou veementemente os mais de 12 anos em que a UFN-3 permaneceu sem qualquer atividade. Para Lula, manter um empreendimento desse porte paralisado foi um desperdício para o país, principalmente diante da forte dependência brasileira da importação de fertilizantes.
Segundo ele, a interrupção das obras trouxe consequências que vão além da perda de milhares de empregos. O presidente destacou que a falta de produção nacional de fertilizantes aumenta os custos da agricultura e deixa o Brasil mais vulnerável às oscilações do mercado internacional.
“Como uma fábrica com esse potencial ficou mais de uma década parada, justamente em um país que precisa produzir fertilizantes para fortalecer sua agricultura?”, questionou Lula.
Lula também relacionou o tema ao cenário geopolítico mundial. De acordo com o presidente, conflitos internacionais acabam refletindo diretamente no preço dos insumos agrícolas e, consequentemente, no bolso da população brasileira. “Quando há guerras ou crises lá fora, quem paga essa conta é o consumidor brasileiro. Produzir fertilizantes aqui significa ter mais autonomia, reduzir custos e dar mais segurança ao abastecimento nacional”, afirmou.
Ao defender a retomada da UFN-3, Lula classificou o empreendimento como estratégico para o futuro do país. Ele ressaltou que uma das maiores potências mundiais na produção de alimentos precisa ampliar sua capacidade industrial e diminuir a dependência de fornecedores externos.
“Não estamos falando apenas dos empregos que essa obra vai gerar, mas da construção de um país mais preparado para garantir sua própria produção e oferecer mais segurança para as próximas gerações”, disse o presidente.

“Agora vai”, garantiu Lula
Ainda em seu discurso, Lula disse que “agora a fábrica sai do papel” e agradeceu a população de Três Lagoas por manter a estrutura “em ordem” até a efetiva retomada. “Se não fosse por vocês, pelo prefeito da cidade, isso aqui estaria em condições muito piores do que estão hoje”.
A responsabilidade pela manutenção da fábrica paralisada, porém, foi do próprio governo federal e da Petrobras, nos 12 anos de paralisação da estrutura.
A conclusão da UFN-3 está orçada em mais de R$ 5 bilhões e é considerada um dos maiores investimentos públicos em execução no Mato Grosso do Sul e no País.
Quando estiver em operação, a unidade terá capacidade para produzir diariamente cerca de 3,6 mil toneladas de ureia e 2,2 mil toneladas de amônia, tornando-se a fábrica de fertilizantes mais moderna da Petrobras.
E o objetivo vai além da produção industrial. Atualmente, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes nitrogenados consumidos pelo agronegócio. Com a entrada da UFN-3 em operação, a expectativa é elevar significativamente a produção nacional (cerca de 17%), reduzindo a dependência externa e fortalecendo a segurança alimentar do país.
A localização da planta também é estratégica. Instalada em Três Lagoas, a unidade ficará próxima do principal polo consumidor de fertilizantes do Brasil, abastecendo especialmente Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Paraná e São Paulo.

Empregos e qualificação profissional: cerca de 8 mil postos diretos e indiretos
Um dos anúncios mais relevantes feitos durante a cerimônia foi a criação de um programa de qualificação profissional voltado à formação da mão de obra que atuará na construção da fábrica.
A Petrobras confirmou que serão destinados recursos para capacitar aproximadamente 1.200 trabalhadores, em parceria com o Senai e institutos federais de educação.
Segundo a presidente da estatal, Magda Chambriard, a medida busca preparar profissionais da própria região para atender à demanda do empreendimento, reduzindo a necessidade de contratação de trabalhadores de outros estados.
A expectativa é que a fase de obras gere cerca de três mil empregos diretos e indiretos.
Após a conclusão da fábrica, outros cinco mil postos de trabalho deverão ser mantidos nas operações industriais e nas atividades ligadas ao funcionamento da unidade, movimentando setores como construção civil, transporte, hotelaria, comércio, alimentação e prestação de serviços.

Petrobras quer ir além com a UFN-3
Embora a prioridade seja concluir a UFN-3 da forma como está, a Petrobras já trabalha com uma perspectiva ainda mais ambiciosa.
Na véspera da visita presidencial, a titular da estatal, Magda Chambriard revelou que a companhia já estuda ampliar a capacidade produtiva de suas fábricas de fertilizantes, incluindo a unidade de Três Lagoas.
Segundo a executiva, a infraestrutura existente permite analisar uma futura expansão da planta, aproveitando toda a logística instalada.
Os estudos ainda estão em fase técnica, mas reforçam o potencial de crescimento do empreendimento no médio e longo prazo.
Magda Chambriard lembrou a longa trajetória da UFN-3. Relembrou que as obras começaram em 2011 e chegaram a aproximadamente 81% de execução antes de serem interrompidas em 2014, após os desdobramentos da Operação Lava Jato.
Agora, segundo ela, a Petrobras precisou revisar todo o projeto antes de autorizar a retomada.
Apesar de o cronograma oficial prever a conclusão da fábrica em 2029, a presidente afirmou acreditar que a entrega poderá ocorrer antes, provavelmente em 2028. “A Petrobras tem mania de superar desafios”, disse.
Ela também destacou que a empresa pretende crescer mantendo disciplina financeira, eficiência operacional e foco na rentabilidade, ressaltando que somente no primeiro trimestre deste ano investiu R$ 26,8 bilhões, alta superior a 25% em relação ao mesmo período de 2025.

Prefeito Cassiano Maia destaca parceria institucional
Responsável por abrir a cerimônia, o prefeito de Três Lagoas, Cassiano Maia, afirmou que a retomada da UFN-3 representa um novo ciclo para o município.
Ao recepcionar o presidente, agradeceu os investimentos federais destinados à cidade e lembrou outras obras financiadas pela União, como escolas de tempo integral, centros de educação infantil, macrodrenagem, a retomada do anel viário e ações voltadas à infraestrutura urbana.
Para o prefeito, a reativação da fábrica terá impacto direto na geração de empregos, na arrecadação municipal e na atração de novos investimentos privados.

Cidade já sente os primeiros reflexos da UFN-3
Mesmo antes do reinício das obras, Três Lagoas já começa a experimentar os efeitos da retomada da UFN-3.
Empresas contratadas pela Petrobras iniciaram a instalação de escritórios na cidade, a Casa do Trabalhador passou a realizar processos seletivos específicos para o empreendimento e o mercado imobiliário já registra aumento na procura por imóveis destinados a alojamentos e instalações administrativas.
A expectativa do setor produtivo é de que a movimentação econômica se intensifique ao longo do segundo semestre, à medida que novas empresas assumam os diferentes pacotes de obras contratados pela Petrobras.
Dívida com credores da 1ª fase das obras foi ignorada pelo presidente Lula
Apesar da expectativa criada pelos empresários que aguardam o recebimento de valores desde a paralisação da obra, o assunto não foi abordado durante a agenda oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Três Lagoas.
Em seus discursos, tanto Lula quanto os representantes do Governo Federal e da Petrobras concentraram as falas na retomada da UFN-3, nos investimentos superiores a R$ 5 bilhões, na geração de empregos e na importância estratégica da fábrica para reduzir a dependência brasileira da importação de fertilizantes.
Não houve qualquer manifestação sobre a situação dos mais de 130 empresários e prestadores de serviços que participaram da primeira fase da construção da unidade, iniciada em 2011, e que afirmam aguardar, há mais de uma década, o pagamento de valores referentes aos serviços executados.
Segundo os credores, o montante devido supera R$ 36 milhões. Eles defendem que a retomada do empreendimento deveria ser acompanhada de uma solução para o passivo deixado após a interrupção das obras, em 2014.
Até o fechamento desta reportagem, nem a Presidência da República nem a Petrobras haviam anunciado qualquer medida ou posicionamento relacionado às reivindicações apresentadas pelo grupo de empresários, representados pelo advogado Humberto Garcia de Oliveira.
Confira a reportagem completa aqui

Agenda de Lula e comitiva presidencial continua em Ponta Porã nesta quinta (25)
Após cumprir a agenda em Três Lagoas, o presidente Lula segue para Ponta Porã, onde participa de ações voltadas à reforma agrária e à agricultura familiar.
Entre os compromissos estão a entrega de títulos de domínio para famílias assentadas, assinatura de decretos de regularização fundiária, anúncios habitacionais, investimentos em educação e atos relacionados ao fortalecimento da produção rural.
Enquanto isso, em Três Lagoas, a expectativa é que o simbolismo desta quinta-feira marque definitivamente o fim de um ciclo de incertezas e o início de uma nova fase de desenvolvimento industrial para a cidade, que volta a ocupar posição estratégica na economia brasileira.
- Matéria atualizada às 16h35 para correção de informações referentes à geração de empregos pela UFN-3.


