Após nove anos de pesquisa, 14 materiais genéticos foram selecionados para produzir mais madeira e manter o desempenho durante períodos de baixa disponibilidade de água
Mato Grosso do Sul começa a cultivar comercialmente uma nova geração de eucaliptos desenvolvida para enfrentar períodos prolongados de estiagem. Os materiais apresentam maior tolerância ao déficit hídrico, resistência a doenças e eficiência no uso da água, características consideradas estratégicas para a expansão do setor de celulose no Estado.
A tecnologia é resultado de nove anos de pesquisa e de aproximadamente R$ 27 milhões em investimentos. Dos 240 clones avaliados inicialmente, 14 foram selecionados para o primeiro ciclo comercial por apresentarem os melhores resultados de produtividade e adaptação às condições climáticas.
Eldorado Brasil, Suzano e Bracell/MS Florestal deverão liderar a implantação dos novos materiais em território sul-mato-grossense. A estimativa dos pesquisadores é que os primeiros plantios ocupem cerca de 600 hectares no Estado.
A área ainda representa menos de 1% dos aproximadamente 150 mil hectares plantados anualmente em Mato Grosso do Sul. A primeira colheita deverá ocorrer por volta de 2032, considerando o ciclo médio de seis anos do eucalipto.

Produtividade pode crescer 20%
A expectativa é elevar a produtividade média das florestas dos atuais 34 metros cúbicos de madeira por hectare ao ano para mais de 40 metros cúbicos. O avanço corresponde a um ganho próximo de 20%.
Os clones foram selecionados para manter o crescimento das árvores mesmo durante períodos de baixa disponibilidade hídrica. Mato Grosso do Sul enfrenta, em média, de quatro a cinco meses de estiagem por ano, condição que pode reduzir o desenvolvimento do eucalipto e, em situações extremas, provocar a morte das plantas.
Além da tolerância à seca, os materiais demonstraram maior resistência às principais doenças florestais e aos ventos fortes. Essa combinação pode diminuir as perdas causadas por enfermidades e pela quebra de árvores durante tempestades.
Os pesquisadores também identificaram melhora na qualidade da madeira, fator capaz de aumentar o aproveitamento industrial e a eficiência na produção de celulose.
A expressão “menor consumo de água”, entretanto, deve ser compreendida como maior eficiência hídrica: as plantas conseguem produzir mais madeira com a água disponível e suportar melhor períodos de escassez.
O projeto começou em 2017 e reúne 15 empresas brasileiras ligadas aos setores de florestas, papel, celulose e siderurgia. A pesquisa é conduzida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e pela Sociedade de Investigações Florestais (SIF).
Metade dos recursos foi financiada pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), por meio de verbas não reembolsáveis. A outra parte foi investida pelas companhias participantes.
Além das empresas com operações em Mato Grosso do Sul, o grupo inclui ArcelorMittal, Klabin e Gerdau. Os materiais foram obtidos por meio do cruzamento de variedades genéticas disponibilizadas pelas próprias participantes.
Os testes experimentais foram realizados até 2025. Depois da avaliação dos resultados, os 14 clones passaram a ser multiplicados para cultivo em maior escala.
A primeira etapa comercial deverá ocupar aproximadamente 1,5 mil hectares no Brasil. Mato Grosso do Sul concentrará perto de 40% dessa área, enquanto o restante será distribuído entre Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Maranhão, Espírito Santo e Tocantins.
No Estado, a projeção é que a Eldorado responda por metade dos 600 hectares iniciais. Suzano e Bracell/MS Florestal devem dividir igualmente a área restante, com cerca de 25% para cada empresa.
A expansão dependerá da multiplicação das mudas e da confirmação do desempenho em escala comercial. A previsão dos pesquisadores é que, dentro de cinco anos, esses materiais possam ocupar mais da metade das áreas plantadas anualmente em Mato Grosso do Sul.
O Estado possui cerca de 1,73 milhão de hectares de florestas plantadas, segundo levantamento produzido em 2025 com imagens de satélite e informações ambientais.

Tecnologia acompanha expansão da celulose
A adoção dos novos clones ocorre durante um ciclo de grandes investimentos industriais na região conhecida como Vale da Celulose.
A Suzano colocou em operação, em Ribas do Rio Pardo, uma fábrica com capacidade anual de 2,55 milhões de toneladas. A Eldorado planeja ampliar a unidade instalada em Três Lagoas, enquanto a Bracell avança no licenciamento de um projeto industrial em Bataguassu.
Em Inocência, a Arauco constrói o Projeto Sucuriú, investimento estimado em US$ 4,6 bilhões e com operação prevista para o final de 2027. A companhia não participa da pesquisa coordenada pela SIF, mas desenvolve seus próprios estudos de melhoramento genético.
Com o crescimento da demanda por madeira, materiais mais produtivos e adaptados às mudanças do clima podem reduzir riscos para as florestas e dar maior estabilidade ao abastecimento das fábricas. O desempenho efetivo dos novos clones, porém, será acompanhado ao longo do primeiro ciclo comercial.


