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Execuções em série ampliam alerta sobre disputa entre facções em Mato Grosso do Sul

Assassinatos, ameaças nas redes sociais e pichações atribuídas a grupos criminosos são investigados em diferentes municípios; Polícia Civil criou estrutura para integrar apurações

A morte de uma menina de três anos durante um ataque a tiros em Cassilândia aumentou a preocupação com a atuação de facções criminosas no interior de Mato Grosso do Sul. A criança estava com o pai, Márcio Aparecido da Silva Filho, de 27 anos, quando os dois foram atingidos na noite de sábado (1º).

Conhecido como “Márcio Pelé”, ele seria o principal alvo dos atiradores. A menina, de três anos e oito meses, também foi baleada e morreu. Outra criança que estava no local ficou ferida.

A Polícia Civil investiga os responsáveis e a motivação do crime. Entre as hipóteses apuradas está uma possível ligação com a disputa territorial entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Essa relação, entretanto, ainda depende de confirmação oficial.

O ataque ocorreu poucos dias depois de outro homicídio em Cassilândia. Em 25 de julho, Gustavo Loschiavo Araújo, de 29 anos, foi executado dentro de um carro. Conforme os relatos reunidos pela polícia, ele havia deixado o sistema prisional e vinha recebendo ameaças.

Antes do assassinato de Gustavo, publicações anônimas começaram a divulgar fotografias e nomes de 24 pessoas supostamente marcadas para morrer. O jovem aparecia entre os citados.

Depois do crime, uma imagem dele foi republicada com um “X” sobre o rosto e a palavra “eliminado”. Os perfis também exibiram mensagens atribuídas ao Comando Vermelho e referências a municípios como Cassilândia, Inocência, Alcinópolis, Costa Rica, Três Lagoas, Campo Grande, Dourados, Corumbá e Ponta Porã.

A autenticidade da lista e a autoria das publicações não foram confirmadas. Apesar disso, o material passou a integrar o conjunto de informações que podem auxiliar as investigações. Conteúdos desse tipo também podem ser utilizados para intimidar rivais, espalhar medo e criar uma percepção de domínio territorial.

Em Bonito, uma inscrição com a sigla do Comando Vermelho apareceu em um muro. A pichação, isoladamente, não comprova a presença organizada da facção no município, mas se soma aos sinais que vêm sendo observados pelas forças de segurança.

Conflitos alcançam diferentes regiões

Ocorrências sob suspeita de envolvimento com organizações criminosas também foram registradas em municípios das regiões norte, leste e de fronteira. Em Sonora, uma tentativa de homicídio ocorrida em fevereiro foi relacionada pela investigação a uma possível rivalidade entre integrantes do PCC e do CV.

Na ocasião, dois homens chegaram de motocicleta a um estabelecimento comercial. O passageiro desembarcou, apontou uma pistola para três trabalhadores e tentou atirar, mas a arma falhou duas vezes. A dupla fugiu em seguida.

Segundo informações registradas no boletim de ocorrência, uma das pessoas relacionadas à motocicleta utilizada no ataque já havia sido alvo de disparos na praça central do município. A possível conexão entre os episódios passou a ser investigada.

Casos violentos também vêm sendo registrados em Corumbá, onde a atuação de grupos criminosos preocupa as autoridades. Embora haja indícios de uma disputa por espaço em Mato Grosso do Sul, cada homicídio precisa ser esclarecido individualmente antes de ser atribuído a uma facção.

Diante da rearticulação dos grupos criminosos, a Polícia Civil instituiu em julho um grupo de trabalho para padronizar a troca de informações e integrar as investigações realizadas na Capital e no interior.

A própria portaria reconhece a necessidade de uma resposta uniforme e tecnicamente coordenada diante do conflito entre facções. O documento estabelece que crimes dessa natureza não devem ser analisados apenas como episódios isolados, mas também como possíveis partes de uma dinâmica mais ampla.

O grupo reúne representantes dos departamentos de Inteligência, Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado, Polícia Especializada, Polícia do Interior e Polícia da Capital.

Entre as atribuições estão o monitoramento de boletins de ocorrência em tempo real, a centralização da extração de dados digitais e a comunicação prévia de operações. A equipe terá 60 dias para apresentar uma proposta de fluxo integrado, conforme a portaria publicada no Diário Oficial.

Classificação nos Estados Unidos

A pressão sobre PCC e Comando Vermelho ganhou dimensão internacional em junho, quando o governo dos Estados Unidos incluiu as duas facções na relação de Organizações Terroristas Estrangeiras.

A medida permite ampliar bloqueios financeiros, restrições migratórias e investigações contra pessoas ou empresas que prestem apoio aos grupos em território norte-americano. A designação foi formalizada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.

A decisão, porém, não altera automaticamente a classificação jurídica dessas organizações no Brasil. Seus efeitos diretos concentram-se na legislação e na atuação das autoridades norte-americanas, embora possam favorecer a cooperação internacional e o rastreamento de recursos.

Em Mato Grosso do Sul, a prioridade continua sendo identificar os responsáveis pelas execuções, verificar possíveis conexões entre os casos e impedir que a disputa entre grupos criminosos alcance ainda mais pessoas sem qualquer envolvimento — como ocorreu com a menina morta em Cassilândia.

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