Ocorrências registradas na reta final da campanha estão sob investigação; três delas apresentam contexto eleitoral, enquanto o caso de Ponta Porã apura uma movimentação financeira na fronteira
Mato Grosso do Sul chega às urnas neste domingo (4) depois de uma reta final de campanha marcada por quatro apreensões de dinheiro em espécie. As ocorrências foram registradas em Iguatemi, Corumbá, Campo Grande e Ponta Porã e, juntas, envolvem valores superiores a R$ 1 milhão.
Apesar da proximidade com a eleição, os casos possuem circunstâncias diferentes. Três ocorrências apresentam elementos relacionados à disputa eleitoral, como materiais de campanha ou suspeita de compra de votos. Em Ponta Porã, a investigação está concentrada na origem e no possível transporte irregular do dinheiro para o Paraguai, sem vínculo eleitoral oficialmente confirmado.
Pacotes identificados e santinhos em Iguatemi
O caso mais recente aconteceu na quarta-feira (30), em Iguatemi. O ex-presidente da Câmara de Mundo Novo José Antônio Pires de Souza, conhecido como Zé Bocão, foi abordado pela Polícia Militar enquanto seguia em direção a Japorã.
No veículo, os policiais encontraram uma mochila com aproximadamente R$ 127 mil, divididos em dez pacotes. Parte dos volumes tinha anotações com nomes, municípios e valores. Também foram recolhidos santinhos, adesivos, faixas e outros materiais de propaganda de um candidato a deputado estadual.
De acordo com o registro policial, José Antônio não conseguiu explicar a procedência do dinheiro. Ele também teria oferecido R$ 5 mil a cada um dos dois militares para impedir o prosseguimento da averiguação, o que resultou em sua prisão por suspeita de corrupção ativa.
O dinheiro, o veículo, os materiais de campanha e um telefone celular foram entregues à Polícia Civil. A finalidade dos recursos e uma eventual ligação com crime eleitoral ainda serão apuradas.

Valor apreendido em Campo Grande gera divergência
Em Campo Grande, a Polícia Federal deflagrou, no dia 25 de setembro, a Operação Jogo Limpo. Os mandados foram cumpridos no comitê eleitoral e no apartamento do deputado estadual e candidato à reeleição Márcio Fernandes, do PL.
A corporação informou ter apreendido mais de R$ 250 mil, além de celulares, um dispositivo de armazenamento de dados e materiais eleitorais. A operação investiga possíveis irregularidades relacionadas à campanha.
O candidato, entretanto, afirmou que o valor recolhido foi de R$ 100 mil. Segundo Márcio Fernandes, o dinheiro havia sido sacado de sua conta após a venda de gado e seria utilizado no pagamento de funcionários e prestadores de serviços de suas propriedades rurais.
O parlamentar negou qualquer relação entre os recursos e uma possível compra de votos. A diferença entre o montante divulgado pela Polícia Federal e o valor informado pelo candidato deverá ser esclarecida no decorrer do inquérito.
Mulher é levada à delegacia em Corumbá
Outra ocorrência foi registrada na quarta-feira em Corumbá, onde a Polícia Federal realizava diligências para verificar informações sobre uma possível entrega de dinheiro a eleitores.
Uma mulher foi encaminhada à delegacia para prestar esclarecimentos depois que os agentes encontraram R$ 1,7 mil e materiais de propaganda eleitoral. O procedimento apura a possível prática de captação ilícita de votos.
A defesa declarou que o dinheiro pertencia à mulher, não seria destinado a nenhuma atividade eleitoral e deverá pedir a devolução da quantia.
R$ 800 mil retirados de banco em Ponta Porã
A maior apreensão ocorreu em 23 de setembro, em Ponta Porã. Uma funcionária de uma universidade instalada no Paraguai foi abordada após retirar R$ 800 mil de uma conta bancária da instituição no lado brasileiro da fronteira.
A diligência foi realizada pela Polícia Federal com o apoio da Controladoria-Geral da União. A mulher foi presa em flagrante, e os investigadores passaram a apurar a origem, a propriedade e o destino dos recursos, além da suspeita de que o dinheiro seria levado irregularmente ao Paraguai.
A defesa sustentou que a quantia tinha finalidade comercial e seria empregada na compra de dois ônibus. Documentos sobre a negociação foram apresentados às autoridades.
Diferentemente das outras ocorrências, até o momento não foi anunciada uma ligação entre os R$ 800 mil e a campanha eleitoral.
Apurações continuam depois da votação
Os quatro episódios aumentaram a atenção das autoridades sobre a movimentação de dinheiro vivo na reta final da disputa. Neste domingo, forças policiais e órgãos da Justiça Eleitoral acompanham a votação e eventuais denúncias envolvendo compra de votos, transporte irregular de eleitores e outras condutas proibidas.
As investigações deverão esclarecer a procedência e a destinação dos valores e determinar se houve algum crime. A apreensão do dinheiro e a abertura dos procedimentos não significam condenação, e todos os envolvidos têm direito à defesa e à presunção de inocência.



