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Morte de homem na BR-158 expõe avanço dos furtos de fios e cabos elétricos em Três Lagoas

Crimes atingem parques, semáforos e estruturas de água, esgoto e drenagem; sequência de casos aumenta a cobrança por policiamento permanente e combate aos receptadores

A morte de um homem durante uma possível tentativa de furto de cabos às margens da BR-158 voltou a expor um problema que se tornou frequente em Três Lagoas. Fiações são retiradas de parques, avenidas, semáforos, estações da Sanesul e outras estruturas essenciais, provocando prejuízos públicos, interrupções de serviços e riscos à população.

Rafael Pereira Lima, de 36 anos, foi encontrado morto por volta da 1h de quinta-feira (29), na saída para Brasilândia. Uma equipe da concessionária de energia foi ao local depois de uma queda no fornecimento e encontrou parte da fiação caída e o corpo próximo à rede elétrica.

Ao lado dele estavam uma escada, uma mochila, um alicate e uma corda. A suspeita inicial é de que Rafael tenha sofrido uma descarga ao tentar retirar um cabo de uma rede de 13,8 mil volts. A fiação era de alumínio, embora exista a possibilidade de que ele acreditasse se tratar de cobre. A Polícia Civil investiga as circunstâncias da morte e apura se havia outras pessoas no local.

O episódio, embora tenha terminado de maneira fatal, não é isolado. A recorrência dos furtos mostra que o problema deixou de ser apenas patrimonial. Quando criminosos atacam sistemas elétricos, semáforos, bombas de drenagem e estações de saneamento, toda a cidade pode sofrer as consequências.

Vítima de 36 anos foi encontrada sem vida após tentativa de furto/reprodução redes sociais

Ataques já comprometem serviços essenciais

A situação mais grave aparece nas estruturas da Sanesul. Segundo dados divulgados pela empresa, 61 furtos de fiação foram registrados em nove estações elevatórias de esgoto de Três Lagoas no intervalo de apenas 60 dias.

Essas unidades bombeiam os resíduos para que o sistema de coleta funcione. Quando os cabos são retirados e os equipamentos param, há risco de acúmulo e extravasamento de esgoto, mau cheiro, contaminação e transtornos sanitários. Cada estação pode atender uma região com aproximadamente 4 mil a 7 mil ligações.

Os sistemas de abastecimento de água também passaram a ser alvo. O Santa Terezinha sofreu duas ações criminosas em menos de dez dias. A estrutura atende cerca de 10 mil ligações e uma população estimada em 30 mil pessoas, distribuídas por bairros como Santa Terezinha, Nossa Senhora Aparecida, Vila Haro, Santos Dumont, Jardim Brasília, Jardim Planalto e Nova Três Lagoas.

Em setembro, o furto de cabos em um poço afetou o fornecimento no Real Parque e em áreas próximas. Na mesma ocasião, uma estação elevatória de esgoto no Guanabara também foi atingida. Dias depois, um homem foi preso ao tentar retirar fios de uma unidade da Sanesul no Jardim Moçambique.

Câmeras e alarmes já estão instalados em parte dessas estruturas, mas não impediram a sequência de invasões. Além do custo para substituir os materiais, as equipes precisam interromper outras atividades para realizar reparos emergenciais.

O problema se repete na iluminação e na sinalização urbana. Até abril, mais de mil metros de fios já haviam sido furtados de semáforos em Três Lagoas. Naquele momento, a Secretaria Municipal de Infraestrutura informava uma média semanal de duas a três ocorrências.

Praças, avenidas e regiões como Segunda Lagoa, Custódio Andries e Capitão Olyntho Mancini estavam entre os locais afetados. O volume de danos ultrapassou a previsão do contrato de manutenção e criou a necessidade de recursos adicionais para reposição dos materiais.

O Parque Linear sofreu novos furtos em maio, ficando parcialmente sem iluminação. A Lagoa Maior e a Avenida Rosário Congro também registraram ocorrências. Mais de dez praças municipais já foram atingidas, segundo informações divulgadas pela Prefeitura.

Em 2025, criminosos retiraram a fiação da casa de bombas do piscinão do Jardim Cangalha. Sem energia, o sistema de drenagem deixa de operar e aumenta o risco de alagamentos em ruas e imóveis durante chuvas fortes.

Esses casos mostram que o prejuízo não se limita ao valor do cobre ou do alumínio levado. Uma pequena quantidade de metal pode deixar um parque escuro, desligar um semáforo, interromper o abastecimento de água ou paralisar o bombeamento de esgoto.

Local onde Rafael foi encontrado, às margens da BR-158/reprodução

Combate precisa alcançar quem compra o material

Três Lagoas possui, desde 2021, uma lei que proíbe a comercialização de cobre, alumínio, cabos, fios e materiais semelhantes sem comprovação de origem. O descumprimento pode resultar em multa, apreensão dos produtos e até cassação do alvará, além da responsabilização criminal por receptação.

A existência da legislação, entretanto, não foi suficiente para interromper o comércio clandestino. O furto continua porque há compradores dispostos a receber materiais sem procedência, muitas vezes já queimados, cortados ou descaracterizados.

Em abril de 2025, a operação Mão de Ferro reuniu policiais civis, militares e fiscais municipais. Quase 500 quilos de fios de alumínio sem comprovação de origem foram encontrados em um estabelecimento no bairro Carioca. Outras duas pessoas foram detidas com aproximadamente 15 quilos de fios de cobre.

Nova fiscalização realizada em abril de 2026 vistoriou empresas de reciclagem e encontrou cobre de origem suspeita, além de outras irregularidades. As ações demonstram que o poder público conhece os possíveis caminhos da receptação. A continuidade dos furtos, contudo, indica que operações isoladas não bastam.

O enfrentamento precisa ser permanente, com inspeções frequentes e sem aviso prévio em ferros-velhos, recicladoras e pontos informais de compra. Também é necessário exigir notas, registros dos vendedores, peso, tipo e procedência dos metais negociados.

Sem atingir quem financia a cadeia, a prisão de quem corta os fios tende a produzir efeito limitado. O material furtado só possui valor para o criminoso porque existe um mercado disposto a comprá-lo.

Mochila de Rafael com objetos usados na tentativa de furto foi recuperada pelos policiais/reprodução

Sequência aumenta cobrança por policiamento

O cenário exige reforço do patrulhamento, principalmente durante a madrugada e em locais que já foram atacados repetidamente. Estações de saneamento, parques, praças, corredores de iluminação e equipamentos de drenagem precisam entrar em rotas permanentes de vigilância, definidas a partir de informações da Prefeitura, da Sanesul e da concessionária de energia.

Em maio, a administração municipal anunciou estudos para implantar a atividade delegada, modelo em que policiais militares trabalham nos horários de folga com remuneração paga pelo município. Também foi apresentado um projeto de videomonitoramento para ampliar a presença das forças de segurança.

Mais recentemente, a Prefeitura informou que a parceria da iluminação pública poderá incorporar câmeras em aproximadamente 153 pontos da cidade, com expectativa de execução a partir de 2027. Enquanto os sistemas não entram em funcionamento, porém, parques, equipamentos urbanos e instalações essenciais continuam expostos.

A resposta precisa combinar mais policiais nas ruas, investigação dos furtos, fiscalização dos receptadores, monitoramento por câmeras e proteção física das instalações. Também é necessário que as autoridades divulguem periodicamente dados consolidados sobre ocorrências, prisões, materiais recuperados e prejuízos, permitindo que a sociedade acompanhe os resultados.

A substituição do cobre por alumínio, adotada em parte da rede pública, reduz o valor comercial dos fios, mas não elimina o problema. O caso da BR-158 demonstra que até os cabos de alumínio continuam sendo atacados, seja por desconhecimento dos criminosos ou pela busca de qualquer material que possa ser vendido.

A população pode colaborar comunicando movimentações suspeitas pelo telefone 190, sem realizar abordagens. Mas a responsabilidade principal não pode ser transferida aos moradores. Cabe ao poder público garantir policiamento suficiente, proteger as estruturas essenciais e sufocar o mercado que transforma patrimônio furtado em dinheiro.

A morte registrada na BR-158 é o episódio mais grave de uma sequência que já deixa áreas no escuro e ameaça serviços de água, esgoto, trânsito e drenagem. O problema está identificado. Agora, a repetição dos casos exige uma resposta contínua, coordenada e proporcional ao risco enfrentado pela cidade.

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