Bolsa interrompeu negociações após queda acentuada, dólar chegou a R$ 5,60 e juros futuros dispararam no primeiro pregão depois da eleição nesta segunda-feira (26)
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma forte turbulência no mercado financeiro nesta segunda-feira (26). A Bolsa brasileira chegou a cair 17,34%, o dólar avançou mais de 12% e atingiu R$ 5,60, enquanto os juros futuros e o risco-país registraram alta expressiva.
Diante da queda do Ibovespa, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo de segurança que interrompe temporariamente as negociações quando o índice recua de maneira acentuada. Foi a primeira paralisação desse tipo desde março de 2020, durante o início da pandemia.
O Tesouro Nacional também cancelou leilões de títulos públicos previstos para esta segunda-feira, em razão da volatilidade. A elevação dos juros negociados no mercado indica que os investidores passaram a exigir uma remuneração maior para financiar o governo brasileiro.
A reação não ocorreu apenas pela vitória de Lula, mas também porque parcela significativa dos investidores havia se posicionado para uma vitória de Flávio Bolsonaro. Após o primeiro turno, a Bolsa acumulou ganhos e superou os 200 mil pontos, enquanto o dólar caiu para menos de R$ 5. Com o resultado contrário ao esperado, houve uma rápida desmontagem dessas posições.
Preocupações
As principais preocupações estão relacionadas ao crescimento das despesas públicas, à trajetória da dívida e ao custo das medidas anunciadas durante a campanha. O mercado aguarda informações sobre eventuais mudanças na equipe econômica, a escolha do ministro da Fazenda e a estratégia do governo para cumprir as metas fiscais sem elevar ainda mais a carga tributária.
Para as próximas semanas, a expectativa predominante é de volatilidade. Analistas consideram que o dólar poderá oscilar entre R$ 5,50 e R$ 5,70 enquanto o governo não apresentar sinais mais claros sobre o controle dos gastos. Em um cenário mais pessimista, marcado pela ausência de ajustes e pelo aumento da desconfiança, a moeda norte-americana poderia se aproximar de R$ 6.
A Bolsa também poderá continuar pressionada, principalmente entre bancos, varejistas, construtoras e empresas dependentes do consumo doméstico. Esses setores são mais sensíveis ao encarecimento do crédito e à redução da atividade econômica.
As empresas exportadoras, por outro lado, podem ser parcialmente beneficiadas pelo dólar mais alto. Durante o pregão, ações de companhias como Suzano, Vale, Embraer e Klabin chegaram a avançar, na contramão da maior parte do mercado. Essas empresas recebem parte relevante de suas receitas em moeda estrangeira.
Projeções para Três Lagoas
Esse movimento produz efeitos distintos em Três Lagoas. A indústria de celulose pode ganhar competitividade com a valorização do dólar, mas fornecedores, prestadores de serviços e pequenos negócios ficam mais expostos ao aumento dos juros, ao encarecimento de máquinas e insumos e à redução da oferta de crédito.
Empresários do município manifestaram preocupação com os rumos da economia após a confirmação do quarto mandato de Lula. Entre os integrantes da Associação dos Jovens Empresários de Três Lagoas (AJE TL), houve demonstrações de insatisfação com o resultado e receio de aumento dos custos, maior pressão tributária e dificuldade para financiar investimentos. A principal preocupação apresentada está relacionada à falta de previsibilidade para quem pretende ampliar a empresa, contratar funcionários ou buscar capital de giro, por exemplo.
Apesar da forte reação desta segunda-feira, a movimentação do mercado não determina, isoladamente, o desempenho da economia nos próximos quatro anos. O comportamento dos ativos poderá mudar rapidamente caso o governo apresente uma equipe econômica considerada confiável e medidas concretas para estabilizar a dívida pública.
Além das decisões do governo, os investidores acompanharão a reunião do Comitê de Política Monetária, prevista para 4 de novembro, e o cenário internacional. Decisões sobre juros nos Estados Unidos, preços do petróleo, desempenho das commodities e resultados de grandes empresas também poderão influenciar o dólar e a Bolsa.
O primeiro pregão depois da eleição mostrou o tamanho da desconfiança existente. A duração dessa instabilidade dependerá, principalmente, da capacidade do governo reeleito de conciliar seus compromissos sociais com responsabilidade fiscal, segurança jurídica e condições para que as empresas continuem investindo e gerando empregos.






