Outro dia, enquanto apresentava mais uma edição do Happy de Inovação, promovido pelo Ecossistema Vale da Celulose, em Três Lagoas, me peguei refletindo sobre algo que tem ocupado cada vez mais espaço nos meus pensamentos: até onde a inteligência artificial poderá transformar o trabalho que escolhi para a vida?
O encontro, realizado no início de setembro, reuniu especialistas, empresários e empreendedores para discutir os impactos da IA nos negócios, no marketing, nas decisões e no mercado de trabalho. Entre perguntas, respostas e demonstrações de como essa tecnologia já faz parte da nossa rotina, percebi que aquela conversa também dizia muito sobre mim.
Afinal, sou jornalista. E pertenço a uma geração que viu a comunicação atravessar transformações extraordinárias.
Comecei na TV, passei pelo jornal impresso, vivi a intensidade do rádio diário, descobri as possibilidades dos podcasts, passei pelas assessorias de comunicação e, mais recentemente, mergulhei no empreendedorismo digital com o Atualiza MS. Em cada uma dessas experiências, precisei aprender novas linguagens, dominar ferramentas e, principalmente, compreender as mudanças no comportamento de quem consome informação.
Agora, diante da inteligência artificial, tenho a sensação de estar testemunhando uma transformação ainda mais profunda. Talvez a maior de todas.
Hoje, uma ferramenta consegue escrever um texto em segundos, resumir documentos extensos, organizar informações, transcrever entrevistas, sugerir perguntas, produzir imagens e até reproduzir vozes humanas com impressionante fidelidade. Aquilo que há poucos anos parecia ficção científica já está incorporado ao cotidiano de muitas redações.
E confesso: acho tudo isso fascinante.
Não sou daqueles que enxergam a tecnologia como inimiga. Pelo contrário. Sempre procurei compreender as mudanças e aproveitar as oportunidades que elas oferecem. Seria incoerente defender a inovação nos negócios, na indústria e na sociedade e, ao mesmo tempo, fechar os olhos para o que ela representa na minha própria profissão.
Mas existe uma pergunta que considero indispensável nessa discussão: será que produzir conteúdo é a mesma coisa que fazer jornalismo?
A resposta começa a aparecer quando revisito minha própria história.
Uma inteligência artificial pode organizar uma reportagem sobre trabalho escravo. Pode pesquisar a legislação, estruturar perguntas e apresentar informações relevantes. Mas não esteve comigo em pautas vividas, não sentiu o medo de momentos desafiadores e não precisou decidir, diante de uma ameaça real, como continuar trabalhando sem colocar outras pessoas em risco.
Da mesma maneira, pode escrever sobre uma manifestação, mas não conhece a tensão de estar cercado por dezenas de pessoas hostis, segurando um microfone e tentando exercer o direito de informar.
Essas experiências não tornam um jornalista melhor do que outro. Mas ajudam a compreender que nossa profissão é feita de algo que vai muito além da capacidade de reunir palavras.
Jornalismo também é presença, sensibilidade, responsabilidade e discernimento.
É perceber quando uma fonte está desconfortável. É reconhecer a emoção escondida em uma resposta aparentemente simples. É saber quando insistir em uma pergunta e quando respeitar o silêncio de alguém. É compreender que uma informação pode ser verdadeira e, ainda assim, exigir cuidado na maneira como será publicada.
Tudo isso envolve decisões humanas, muitas vezes tomadas em segundos, diante de situações que nenhum manual consegue prever completamente.
E talvez seja essa dimensão que esteja sendo negligenciada em parte das discussões sobre o futuro da comunicação.
Estamos tão impressionados com a capacidade das máquinas de escrever que corremos o risco de esquecer o que significa ter alguma coisa importante para contar.
A inteligência artificial consegue produzir uma notícia a partir de informações disponíveis. Mas quem esteve no local? Quem conversou com as pessoas? Quem confrontou as versões? Quem identificou aquilo que ninguém havia percebido? Quem assumirá a responsabilidade se uma informação estiver errada?
Essas perguntas continuam fundamentais.
E não estou defendendo que jornalistas devam abandonar a IA. Muito pelo contrário. Considero que ela pode ser uma extraordinária aliada da profissão, especialmente para profissionais e veículos independentes que precisam produzir com equipes enxutas, recursos limitados e uma demanda crescente por conteúdo.
No Atualiza MS, por exemplo, acompanho diariamente os desafios de empreender em comunicação. Preciso pensar em pautas, produzir notícias, desenvolver conteúdos para diferentes plataformas, administrar um negócio e acompanhar as transformações tecnológicas sem perder aquilo que justifica nossa existência: a confiança do público.
Ferramentas capazes de otimizar processos e ampliar a produtividade são bem-vindas. Mas não podemos confundir eficiência operacional com qualidade editorial.
Um texto impecável, escrito em segundos, pode não ter qualquer valor jornalístico se não estiver sustentado por informações verificadas. Por outro lado, uma reportagem simples, produzida por um profissional que conhece profundamente sua comunidade, pode transformar a vida de muitas pessoas.
E é nesse ponto que volto a pensar no jornalismo regional.
Mato Grosso do Sul vive um período de transformações extraordinárias. A expansão da indústria de celulose, o fortalecimento do agronegócio, os investimentos em infraestrutura, a transição energética e o avanço da inovação estão redesenhando a realidade de municípios inteiros.
A inteligência artificial pode reunir dados sobre esses acontecimentos, identificar tendências e produzir análises. Mas compreender o significado dessas mudanças para quem vive aqui exige proximidade.
Existe uma diferença entre saber que uma indústria está sendo construída em determinada cidade e compreender o que essa construção representa para o trabalhador que procura emprego, para o empresário que pretende investir ou para a família que observa sua comunidade se transformar.
A máquina pode conhecer os números de Três Lagoas. Mas é o jornalista que vive aqui quem conhece as histórias por trás deles.
Isso não significa que toda reportagem precise ser presencial ou que a tecnologia seja incapaz de contribuir para análises profundas. Significa apenas reconhecer que o jornalismo não se resume à organização de informações. Ele também depende de escolhas, relações humanas e responsabilidade perante a sociedade.
Durante o Happy de Inovação, enquanto ouvia os convidados e conduzia as discussões, pensei justamente nessa necessidade de equilíbrio. A inteligência artificial já está transformando empresas, profissões e comportamentos. Resistir cegamente a essa realidade seria desperdiçar oportunidades. Aceitá-la sem reflexão, entretanto, seria igualmente perigoso.
Precisamos aprender a trabalhar com essas ferramentas sem transferir a elas aquilo que constitui nossa responsabilidade profissional.
E há um aspecto dessa transformação que me preocupa especialmente: a possibilidade de confundirmos velocidade com competência.
Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Em poucos minutos, qualquer pessoa pode criar um texto, uma imagem, um vídeo ou uma apresentação com aparência profissional. Mas a facilidade de produzir não elimina a necessidade de verificar, contextualizar e responder pelo que se publica.
Aliás, quanto mais conteúdo artificial circular, maior poderá ser a importância de profissionais capazes de distinguir informação confiável de material fabricado.
Talvez estejamos caminhando para um cenário curioso: quanto mais tecnológica se tornar a comunicação, mais valiosa poderá ser sua dimensão humana.
O público continuará precisando de pessoas em quem confiar. Profissionais que conheçam a realidade sobre a qual escrevem, que tenham compromisso com a verdade e que sejam capazes de reconhecer os próprios erros.
E isso me leva de volta àquele jovem repórter que, muitos anos atrás, insistia em conseguir uma informação dentro de uma delegacia.
Naquela época, eu jamais imaginaria que um dia estaria apresentando um encontro sobre inteligência artificial, discutindo algoritmos e acompanhando tecnologias capazes de produzir textos com uma velocidade infinitamente superior à minha.
Também não imaginava que teria meu próprio veículo de comunicação, que trabalharia com podcasts ou que precisaria compreender plataformas digitais para continuar fazendo aquilo que sempre gostei.
Mas uma coisa permaneceu intacta durante toda essa trajetória: a curiosidade.
Continuo querendo saber o que aconteceu, por que aconteceu, quem está envolvido e quais serão as consequências. Continuo acreditando que uma boa pergunta pode revelar muito mais do que uma resposta aparentemente perfeita.
A inteligência artificial pode oferecer respostas extraordinárias. Mas cabe a nós decidir quais perguntas realmente precisam ser feitas.
Não sei como serão as redações daqui a dez anos. Não sei quais plataformas estarão dominando a comunicação, quais atividades serão automatizadas ou quantas funções deixarão de existir nos formatos que conhecemos hoje.
Sei apenas que o jornalismo já sobreviveu a muitas transformações. E continuará se reinventando, desde que seus profissionais compreendam que a tecnologia deve ampliar suas possibilidades, não substituir seu compromisso com a sociedade.
Não tenho medo de aprender a trabalhar com inteligência artificial. Tenho muito mais receio de ver jornalistas desistindo de pensar por conta própria.
Porque, no fim das contas, o futuro da nossa profissão não será determinado apenas pela capacidade das máquinas de produzir conteúdo, mas também pela nossa disposição de continuar investigando, ouvindo, questionando e compreendendo o mundo.
A inteligência artificial pode escrever sobre praticamente tudo. Mas ainda não viveu uma única história para contar.
Eu vivi algumas. E pretendo continuar vivendo muitas outras.
De preferência, com boas perguntas, muita curiosidade e a tecnologia trabalhando a nosso favor.



