Estado deve liderar expansão do Centro-Oeste em 2026, mas redução na geração de empregos e queda projetada para o próximo ano acendem sinal de alerta
Mato Grosso do Sul deve encerrar 2026 com crescimento econômico de 3,4%, quase o dobro dos 1,8% estimados para o Brasil. O desempenho coloca o Estado na liderança do Centro-Oeste e revela uma resistência maior à desaceleração observada no restante do País.
As projeções integram a Resenha Regional de setembro, elaborada pelo Banco do Brasil. O estudo atribui a vantagem sul-mato-grossense principalmente ao avanço da agropecuária, à expansão industrial e aos investimentos relacionados à celulose, aos biocombustíveis, à produção de alimentos e à infraestrutura.
Enquanto a atividade brasileira perde força sob os efeitos dos juros elevados, do crédito mais restrito e da redução do consumo, Mato Grosso do Sul se beneficia de uma estrutura produtiva diretamente ligada à produção de matérias-primas e ao processamento industrial.
A estimativa para 2026 aponta crescimento de 7% na agropecuária estadual, acompanhado por altas de 3,2% na indústria e de 2,2% nos serviços. Para o Brasil, as projeções são mais moderadas: 2,4% no campo, 1,7% na indústria e 1,8% nos serviços.
Campo impulsiona outras atividades
A agropecuária permanece como o principal motor do crescimento sul-mato-grossense. A segunda safra de milho 2025/2026, por exemplo, está estimada em 16,253 milhões de toneladas, volume 14,3% superior ao recorde anterior.
O Valor Bruto da Produção Agropecuária do Estado deve alcançar R$ 83,47 bilhões neste ano, ante R$ 82,32 bilhões em 2025. O montante mantém Mato Grosso do Sul na sétima colocação nacional, com participação próxima de 6% na riqueza produzida pelo agronegócio brasileiro.
Esse desempenho não fica restrito às propriedades rurais. Uma safra maior aumenta a procura por transporte, armazenagem, máquinas, manutenção, combustíveis, serviços financeiros e comércio. Também abastece frigoríficos, usinas, esmagadoras e outras unidades industriais.
A construção civil aparece como outro componente importante. O Banco do Brasil identificou atividade aquecida no setor em Mato Grosso do Sul, favorecida tanto pela renda gerada no campo quanto pela implantação e ampliação de empreendimentos industriais.
Celulose amplia peso da indústria
A diversificação econômica também ajuda a explicar por que Mato Grosso do Sul mantém uma projeção superior à média brasileira. Embora o agronegócio continue decisivo, a indústria passou a exercer papel mais relevante na sustentação da atividade.
Os grandes investimentos na cadeia da celulose movimentam regiões como Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Inocência, Brasilândia e Bataguassu. Os efeitos alcançam obras, fornecedores, transporte, energia, comércio, serviços especializados e formação de mão de obra.
A expansão das indústrias de alimentos, fertilizantes, bioenergia e biocombustíveis reforça esse movimento. Na avaliação econômica do Banco do Brasil, esses projetos ajudam a reduzir a dependência exclusiva das safras e funcionam como proteção parcial diante das oscilações da agropecuária.

Mercado de trabalho perde velocidade
O crescimento acima da média nacional, entretanto, não significa que Mato Grosso do Sul esteja imune à desaceleração. Os números do emprego formal já indicam perda de ritmo.
Entre janeiro e julho de 2026, o Estado criou 19.258 postos de trabalho com carteira assinada. No mesmo intervalo de 2025, o saldo havia sido de 26.988 vagas. A diferença representa 7.730 empregos a menos e uma redução de 28,6% na geração líquida de postos formais.
O dado mostra que as empresas continuam contratando, mas em velocidade menor. Em períodos de atividade mais moderada, os primeiros efeitos costumam aparecer na abertura de novas vagas, nos reajustes salariais e nas decisões de investimento.
A situação de Mato Grosso do Sul ainda é mais favorável do que a observada em várias partes do País. A taxa de desemprego estadual permanece abaixo da média brasileira, mas o comportamento das contratações reforça a necessidade de acompanhar a qualidade e a distribuição regional do crescimento.
Projeção muda radicalmente em 2027
O cenário favorável previsto para este ano pode não se repetir em 2027. O Banco do Brasil estima avanço de apenas 0,3% para a economia sul-mato-grossense no próximo ano.
A forte desaceleração estaria concentrada na agropecuária, cuja atividade poderá recuar 6,7%. A indústria deve crescer 1,7%, enquanto os serviços poderão avançar 2,9%.
Entre os principais riscos está a possibilidade de impactos do El Niño sobre a produção de soja, milho e outras cadeias agropecuárias. Uma eventual quebra ou redução de produtividade também afetaria transporte, comércio, armazenagem, construção e serviços ligados ao campo.
Os investimentos industriais, especialmente na produção de celulose, deverão funcionar como contrapeso. Ainda assim, o estudo indica que eles podem não ser suficientes para neutralizar integralmente uma retração expressiva da agropecuária.
O contraste entre os dois anos resume o desafio estadual: Mato Grosso do Sul deve crescer bem acima da média nacional em 2026, sustentado pelo campo e pela industrialização, mas precisará transformar os investimentos em uma base econômica mais diversificada para diminuir sua exposição ao clima e aos ciclos das commodities.



