Rumo, MRS e Ferrovia Centro-Atlântica avaliam a concessão, enquanto a J&F acompanha o projeto por interesses na mineração, celulose e produção de alimentos
A disputa pela retomada da Malha Oeste começa a ganhar novos participantes. Rumo, MRS Logística e Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), três das maiores operadoras ferroviárias do Brasil, demonstraram interesse na concessão. O grupo J&F, que mantém grandes operações industriais em Mato Grosso do Sul, também acompanha diretamente o processo.
A previsão da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) é publicar o edital até dezembro de 2026. Se o cronograma avançar sem novas intercorrências, o leilão dos aproximadamente 1,6 mil quilômetros de trilhos poderá ocorrer antes do encerramento do primeiro semestre de 2027.
A estimativa foi apresentada por Marcelo Cardoso Fonseca, diretor substituto da ANTT e titular da Superintendência de Concessão da Infraestrutura. Segundo ele, a expectativa é de que o contrato com a futura concessionária seja assinado poucos meses depois da divulgação do edital.
O projeto pretende restabelecer a ligação ferroviária entre Mato Grosso do Sul e o interior de São Paulo, possibilitando o escoamento de minério, celulose, grãos, carnes e outros produtos em direção aos grandes centros consumidores e aos portos.

Ferrovia está sem transportar cargas
A concessão anterior chegou ao fim em junho. Desde então, a Rumo permanece responsável pela estrutura ferroviária por meio de um contrato emergencial com duração de 180 dias, válido até o encerramento deste ano.
O acordo temporário está voltado principalmente à preservação dos trilhos, estações e demais bens vinculados à ferrovia. A operação de cargas está interrompida desde dezembro de 2025, quando foi realizada a última viagem para transportar minério entre Corumbá e o distrito de Porto Esperança.
O leilão chegou a ser planejado para 2026, mas o cronograma foi adiado diante das discussões sobre os investimentos obrigatórios e a definição dos trechos que deverão ser recuperados primeiro.
Mesmo com as pendências, a presença de três empresas especializadas é vista como um fator favorável à concessão. Além da Rumo, que administrou a malha nos últimos anos, o projeto despertou a atenção da MRS, responsável por uma das maiores operações ferroviárias de cargas do País, e da FCA, que atua em oito estados desde a década de 1990.

Interesse alcança mineração e celulose
A J&F aparece no processo como potencial usuária da ferrovia. O conglomerado controla a LHG Mining, em Corumbá, e a Eldorado Brasil, fabricante de celulose instalada em Três Lagoas.
No setor mineral, o interesse está concentrado inicialmente na recuperação de cerca de 45 quilômetros entre as minas de Corumbá e o terminal de Gregório Curvo, na região de Porto Esperança. A LHG planeja utilizar o Rio Paraguai para exportar até 15 milhões de toneladas de minério por ano.
Em Três Lagoas, a Eldorado produz atualmente cerca de 1,8 milhão de toneladas anuais de celulose e mantém planos para ampliar a capacidade da unidade. Caso o volume seja duplicado, a fábrica teria demanda suficiente para formar diariamente um trem com aproximadamente 110 vagões carregados em direção ao Porto de Santos.
A utilização dos trilhos pela mineradora ou pela fabricante de celulose dependeria, entretanto, de uma parceria com uma concessionária ferroviária. A modelagem em discussão prevê a recuperação da ligação entre Corumbá e Mairinque, ainda que as intervenções sejam realizadas por etapas.
A ferrovia também poderia atender outras empresas ligadas à J&F em Mato Grosso do Sul. O grupo controla unidades da JBS e da Seara, incluindo frigoríficos de bovinos e abatedouros de aves, setores que movimentam grandes volumes de matérias-primas e produtos industrializados.
Recuperação pode exigir R$ 35 bilhões
As projeções iniciais indicam que a reativação completa da Malha Oeste poderá demandar aproximadamente R$ 35 bilhões. O governo federal sinalizou a possibilidade de participar com recursos equivalentes a cerca de 10% desse montante, principalmente nas primeiras etapas do projeto.
O processo também ocorre em meio a uma disputa jurídica entre a União e a Rumo, envolvendo valores estimados em R$ 6 bilhões. O governo cobra outorgas e multas relacionadas a obrigações previstas no antigo contrato. A companhia, por sua vez, afirma possuir créditos decorrentes de investimentos realizados na ferrovia.
Segundo a avaliação técnica apresentada pela ANTT, o impasse não impede a preparação do edital nem a realização de uma nova licitação. A principal missão agora será estabelecer um contrato capaz de assegurar investimentos, retomada gradual das operações e atendimento aos setores produtivos que dependem de uma alternativa ao transporte rodoviário.



