Empreendedores foram qualificados para desenvolver novos produtos, fortalecer a identidade regional e criar oportunidades de negócios e geração de renda a partir do peixe, ingrediente típico e abundante na região
Do rio para a mesa, o pescado ganhou novos sabores e abriu novas possibilidades de negócios em Três Lagoas. Nesta quinta-feira (27), profissionais e empreendedores participaram da oficina “Delícias do Anzol”, promovida pelo Sebrae/MS para aprimorar técnicas culinárias e mostrar como um ingrediente profundamente ligado à identidade local pode agregar valor à gastronomia e às experiências oferecidas a moradores e turistas.
O cenário escolhido para a capacitação ajudou a traduzir essa proposta. Às margens do rio Sucuriú, no Balneário Municipal, o chef Marcílio Galeano conduziu uma experiência ao ar livre que aproximou cozinha, empreendedorismo e vocação turística. A ideia foi ampliar o olhar dos participantes sobre o pescado, mostrando que ingredientes presentes no cotidiano da região podem ganhar novos preparos, apresentações e valor comercial.
Na prática, técnicas de preparo e aproveitamento dos peixes dividiram espaço com orientações sobre apresentação dos pratos, valorização dos ingredientes regionais e criação de opções capazes de despertar o interesse do consumidor. Durante a oficina, Galeano preparou três receitas que traduziram essas possibilidades: sashimi e ceviche de tilápia e uma moqueca de pintado, combinando diferentes técnicas com peixes bastante consumidos na região.

A iniciativa integra o programa Cidade Empreendedora, executado em Três Lagoas pelo Sebrae/MS em parceria com o Governo do Estado e a Prefeitura Municipal.
Para a analista de relacionamento do Sebrae/MS Ana Flavia Arrais, investir na qualificação de quem atua no setor também ajuda o município a transformar uma de suas vocações turísticas — a pesca — em oportunidades para outros segmentos da economia, ampliando o potencial de consumo gerado pela presença de visitantes. “Três Lagoas tem uma relação muito forte com os rios e com a pesca, e existe uma oportunidade enorme quando conseguimos conectar essa identidade à gastronomia. A proposta foi ajudar os empreendedores a enxergarem o pescado como parte de uma experiência que pode ser oferecida ao visitante. Quanto mais preparado estiver o pequeno negócio para transformar aquilo que é característico do território em produtos de qualidade, maiores serão as possibilidades de gerar renda, movimentar outros segmentos e fazer com que o turista leve consigo uma memória da nossa região”, destacou.
A conexão entre gastronomia e turismo também foi ressaltada pelo secretário municipal de Cultura e Turismo, Stênio Congro. Segundo ele, aproveitar elementos que já fazem parte da identidade de Três Lagoas contribui para diversificar as experiências oferecidas aqui. “O turista que vem pescar não consome apenas o destino de pesca. Ele se hospeda, frequenta restaurantes, compra produtos e procura conhecer aquilo que é próprio do lugar. Quando qualificamos a gastronomia e valorizamos o pescado da nossa região, acrescentamos mais uma experiência. Temos uma cultura ligada aos rios que precisa ser reconhecida também como um ativo turístico, capaz de movimentar a economia e gerar oportunidades”, afirmou.

Identidade regional como oportunidade de negócio
Conhecida pela proximidade com importantes rios como o Sucuriú e o Paraná e pela relação histórica de comunidades ribeirinhas com a pesca, Três Lagoas encontra nesse patrimônio possibilidades que ultrapassam a atividade pesqueira. A gastronomia amplia a cadeia de valor do turismo ao conectar restaurantes, pequenos produtores, empreendedores e visitantes do território.
Na avaliação do integrante da Associação Integra Costa Leste, Ivan Murgi Farias, transformar características próprias de cada município em produtos e experiências turísticas é um caminho para fortalecer não apenas destinos isolados, mas toda a região. Para ele, a abundância de recursos naturais, a cultura e a gastronomia oferecem oportunidades para construir uma identidade capaz de diferenciar a Costa Leste e ampliar o impacto econômico provocado pela atividade turística. “O turismo ganha força quando o visitante encontra experiências que só poderia viver naquele lugar. A Costa Leste está sobre o Aquífero Guarani, é cercada por rios, natureza e uma cultura muito própria, e a gastronomia tem um enorme potencial para traduzir toda essa identidade. Muitas vezes, aquilo que para nós faz parte do cotidiano pode ser justamente o que encanta quem vem de fora. Capacitações como essa ajudam o empreendedor a enxergar esse valor e transformá-lo em produto, serviço e experiência”, pontuou.
A oficina também despertou novas possibilidades entre quem já fez do pescado o centro do próprio negócio. Edimara Pádua Carneiro, proprietária de um restaurante especializado, trabalha há 14 anos com peixes e mantém cerca de 90% do cardápio dedicado a essa proteína. Mesmo com a experiência acumulada, ela encontrou na capacitação novas formas de trabalhar um ingrediente que conhece bem, diversificar as preparações e criar experiências capazes de surpreender os clientes. “Praticamente todo o nosso cardápio é construído a partir do pescado, mas percebi que ainda existem muitas possibilidades que eu não explorava. A gente acaba se acostumando a preparar o produto de determinadas maneiras e, durante a oficina, conheci técnicas, combinações e formas de apresentação que me fizeram olhar para essa matéria prima de outro jeito. Para quem empreende, isso é muito importante, porque o cliente não quer apenas comer bem; ele também quer descobrir sabores e viver uma experiência diferente. Tive várias ideias de pratos que quero testar e, quem sabe, incorporar ao nosso cardápio”, relatou.
Guia de pesca e integrante da Associação de Pesca de Três Lagoas (APETL), Lucas Cabanha já costuma incluir a gastronomia na experiência oferecida aos pescadores que acompanha, preparando pratos como sashimi e ceviche durante as atividades. A oficina, porém, fez com que ele enxergasse essa prática sob uma nova perspectiva: além de agradar o visitante, os sabores ligados à pesca podem agregar valor ao serviço e se transformar em mais uma oportunidade de negócio. “Quem vem para Três Lagoas pescar quer aproveitar tudo o que a cidade e os nossos rios têm para oferecer, e a gastronomia faz parte dessa experiência. Quando entregamos qualidade e algo diferente para o pescador, também podemos cobrar de forma justa por essa experiência. Saio deste curso enxergando possibilidades que antes não percebia e que podem gerar novas oportunidades para quem vive da pesca e do turismo em Três Lagoas”, concluiu.

Turismo que também passa pela mesa
A oficina “Delícias do Anzol” reforçou uma das frentes trabalhadas pelo Cidade Empreendedora: identificar as potencialidades do território e transformá-las em oportunidades capazes de estimular pequenos negócios e promover o desenvolvimento local.
No segmento gastronômico, essa estratégia passa pela qualificação dos empreendedores e pela valorização de produtos, saberes e tradições que ajudam a diferenciar o município.
Ao aproximar a culinária da vocação de Três Lagoas para o turismo de pesca, a capacitação também buscou ampliar o protagonismo de quem vive dessa cadeia, incluindo pequenos empreendedores e comunidades ligadas aos rios.
A proposta é fazer com que parte da riqueza produzida pela atividade turística permaneça no próprio território, por meio de novos produtos, experiências, trabalho e renda ligadas à experiências gastronômicas.



