Mais de um mês depois da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, a Três Lagoas, antigos fornecedores da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-3) ainda aguardam uma resposta sobre valores que afirmam ter a receber desde a paralisação da obra, em 2014.
A passagem da comitiva pela cidade, em 25 de junho, marcou politicamente a retomada do empreendimento, interrompido há mais de uma década. Desde então, aumentaram os sinais de mobilização para o reinício dos trabalhos, principalmente por meio da divulgação frequente de oportunidades de emprego. Na outra ponta, porém, não houve avanço conhecido nas reivindicações dos credores.
Empresas envolvidas no projeto passaram a procurar trabalhadores para diferentes funções da construção civil. As listas divulgadas pela Casa do Trabalhador incluem vagas para ajudantes, pedreiros, carpinteiros, pintores, armadores, montadores de andaimes e soldadores.
Em diferentes dias do fim de julho, foram anunciadas 255 vagas e, posteriormente, outras duas listas com 104 oportunidades cada, destinadas ao empreendimento. Como determinadas funções podem permanecer disponíveis de um dia para outro, os números não representam necessariamente contratações distintas, mas demonstram o avanço da mobilização de mão de obra.
As seleções vêm criando a expectativa de que os serviços sejam efetivamente retomados no canteiro da UFN-3. A unidade estava com aproximadamente 81% de sua estrutura concluída quando teve as obras interrompidas.
Para finalizar o complexo, está previsto um novo investimento estimado em US$ 1 bilhão. A cerimônia realizada em junho confirmou a intenção de retomar o projeto, conforme divulgado pela Prefeitura de Três Lagoas.

Pendência atravessa mais de uma década
Enquanto as contratações avançam, empresários que trabalharam na primeira fase da construção dizem continuar sem qualquer proposta de negociação. O grupo é representado pelo advogado Humberto Garcia de Oliveira e reúne ex-fornecedores e prestadores de serviços de Três Lagoas.
Segundo os credores, mais de 136 empresas foram prejudicadas pela interrupção do empreendimento. Os valores reivindicados ultrapassariam R$ 36 milhões, envolvendo serviços e materiais fornecidos durante a execução da obra.
Os empresários relatam que a falta dos pagamentos provocou endividamento, perda de patrimônio e fechamento de negócios. Alguns proprietários teriam morrido sem receber os valores cobrados.
A reivindicação não é recente. Em 2015, uma ação civil pública buscou responsabilizar as empresas que integravam o consórcio contratado para executar a UFN-3 e, de forma subsidiária, a Petrobras. Naquele ano, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 36 milhões para assegurar os pagamentos reclamados, conforme histórico divulgado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
A existência do processo mostra que a cobrança possui um histórico judicial, embora a responsabilidade pelos débitos tenha sido objeto de discussão entre as empresas envolvidas.
Apelo feito durante visita não teve retorno
Às vésperas da visita presidencial, os antigos fornecedores divulgaram uma carta aberta pedindo que a retomada da fábrica também contemplasse uma solução para as pendências deixadas pela primeira etapa do empreendimento.
Passado mais de um mês, o grupo afirma que não recebeu convite para reunião, proposta de acordo ou previsão de pagamento. Também não foi divulgado posicionamento específico da Petrobras sobre as reivindicações apresentadas na carta.
Assim, o cenário da UFN-3 expõe duas realidades distintas. De um lado, a abertura constante de vagas e a preparação para devolver movimento ao canteiro industrial. Do outro, empresários locais continuam aguardando uma resposta sobre serviços prestados há mais de uma década.
Para os credores, a retomada da fábrica representa uma oportunidade de desenvolvimento econômico para Três Lagoas, mas também deveria servir para enfrentar o passivo financeiro do projeto anterior. Até que isso aconteça, eles acompanham os anúncios de investimentos e contratações enquanto seguem, como dizem, “a ver navios”.


