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Como Três Lagoas (MS) se tornou a Capital Mundial da Celulose

Três Lagoas, no leste de Mato Grosso do Sul, carrega hoje um título oficial: pela Lei Estadual nº 4.336/2013, confirmada em nível nacional pela Lei Federal nº 14.142/2021, o município é reconhecido como a Capital Mundial da Celulose. O título não é só marketing regional: está sustentado por números que colocam a cidade entre os polos mais relevantes do planeta em produção florestal e industrial.

Antes das fábricas, o eucalipto

A história não começa com chaminé de fábrica. Começa em 1988, quando a Chamflora se instalou no município e passou a formar a base florestal de eucalipto que, décadas depois, sustentaria a indústria de celulose. Foi só em 2006 que o polo industrial ganhou forma, com o anúncio da fábrica de papel da International Paper e da unidade de celulose da VCP (Votorantim Celulose e Papel). Em 2009, a fusão da VCP com a Aracruz deu origem à Fibria e, nesse mesmo ano, entrou em operação a primeira fábrica de celulose do Estado, com capacidade de 1,3 milhão de toneladas por ano, resultando em um salto de 300% no PIB do município.

Em 2012, chegou a Eldorado Brasil, do grupo J&F. Em 2017, a Fibria inaugurou sua segunda linha de produção em Três Lagoas. Em 2018, a Suzano comprou a Fibria, reunindo as duas grandes operações do município sob uma só marca. Foi essa sequência de duas décadas que consolidou Três Lagoas no setor, no Brasil e no mundo.

Hectares de eucalipto: a matéria-prima que sustenta tudo

Nada disso seria possível sem a floresta. Segundo levantamento do Sistema de Informação Geográfica Agropecuária (SIGA/MS), divulgado pela Famasul no fim de 2025, Três Lagoas concentra, sozinha, cerca de 362,8 mil hectares de eucalipto, o equivalente a 19,2% de toda a área cultivada com a espécie no Estado — a segunda maior participação municipal, atrás apenas de Ribas do Rio Pardo, que também integra o chamado Vale da Celulose.

Em escala estadual, o crescimento tem sido acelerado. Mato Grosso do Sul tinha cerca de 1,4 milhão de hectares de florestas plantadas em 2023 e chegou a aproximadamente 1,6 milhão de hectares de eucalipto em 2024, respondendo por 24% da produção nacional de madeira em tora para papel e celulose. A projeção da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul) é de que a área alcance 2,7 milhões de hectares até o fim de 2026, ultrapassando Minas Gerais, hoje líder nacional, com cerca de 2,2 milhões de hectares. Atualmente, mais de 98% da área de silvicultura sul-mato-grossense é ocupada pelo eucalipto, e Mato Grosso do Sul já reúne os principais municípios produtores de eucalipto do Brasil: Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Brasilândia e Água Clara.

Os números que colocam a região no mapa mundial

Com essa base florestal, a produção industrial ganhou escala global. Só a unidade da Suzano em Três Lagoas, somando suas duas linhas, tem capacidade para processar cerca de 3,25 milhões de toneladas de celulose por ano, enquanto a Eldorado Brasil, também instalada no município, produz 1,8 milhão de toneladas anuais. Juntas, as duas empresas processam aproximadamente 5 milhões de toneladas de celulose por ano, mais do que muitos países produzem. Para dar a real dimensão disso: se fosse comparado a um país, Mato Grosso do Sul seria hoje o 10º maior produtor de celulose do planeta, à frente de nações como o Chile.

A unidade da Suzano em Três Lagoas foi, ainda, a primeira do mundo a alcançar o marco de 30 milhões de toneladas produzidas em apenas 14 anos de operação — o tempo mais rápido já registrado por uma fábrica do tipo em qualquer lugar do planeta.

O que vem depois de sermos os maiores

O ciclo não parou. Em 2024, a Suzano inaugurou sua terceira operação no Estado, em Ribas do Rio Pardo, com capacidade de 2,55 milhões de toneladas por ano — apontada como a maior fábrica de celulose de linha única do mundo. Para os próximos anos, estão previstas a entrada em operação da Arauco, em Inocência, com 3,5 milhões de toneladas por ano; o início das obras da Bracell, em Bataguassu, com 2,9 milhões de toneladas por ano; e a possível segunda unidade da Eldorado, em Três Lagoas (MS), adicionando mais 2,6 milhões de toneladas por ano. Quando todo esse corredor estiver funcionando, o Estado deverá processar mais de 10 milhões de toneladas de celulose por ano, praticamente dobrando a capacidade atual. Segundo o Sindicato das Indústrias de Papel e Celulose de MS (Sinpacems), a área destinada ao plantio de eucalipto precisará crescer cerca de 87% na próxima década para acompanhar essa demanda.

Esse cenário aponta para a grande oportunidade de Três Lagoas: não apenas produzir mais celulose, mas se firmar como o centro de serviços de todo o corredor industrial. O movimento já começou, com empresas como a Andritz, que montou um centro de manutenção de equipamentos de celulose e papel para atender toda a região, e a White Martins, com uma nova unidade de gases industriais, bem como empresas pertencentes a empresários locais: da construção civil, como Concreluz, Plangeff e Estima Engenharia; da logística, como Zocar Rio, Lange Rental, Perlopes Transportes e Ritmo Logística; além de outras com soluções mais específicas, como Artifrio Soluções, Belga Montagens e Birigui Soluções Ambientais. São empresas que nasceram em Três Lagoas e que vêm se fortalecendo e ganhando protagonismo regional e até mesmo nacional. Abre-se, assim, a oportunidade para que o poder público municipal crie iniciativas e incentivos que acelerem esse processo, aumentem a geração de riquezas para o nosso município e consolidem o nosso título de Capital Mundial da Celulose.

 

Por: Roberto de Moraes

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