Relatório do JPMorgan aponta risco de redução da oferta mundial da commodity e destaca a Suzano como uma das empresas mais preparadas para enfrentar os impactos climáticos; região de Três Lagoas concentra o maior parque de produção de celulose do país
A possibilidade de um super El Niño nos próximos meses voltou a movimentar o mercado internacional de celulose e pode ter reflexos diretos em Mato Grosso do Sul, estado que abriga o maior polo mundial de produção da commodity. Um relatório divulgado pelo banco de investimentos JPMorgan aponta que a intensificação do fenômeno climático pode provocar interrupções na produção e na logística de importantes países produtores, reduzindo a oferta global e favorecendo empresas mais resilientes — entre elas, a Eldorado Brasil e a Suzano.
O cenário coloca o Vale da Celulose, especialmente a região de Três Lagoas, no centro das atenções do mercado internacional. Atualmente, o polo reúne duas fábricas da Suzano em Três Lagoas, uma unidade da empresa em Ribas do Rio Pardo e a planta da Eldorado Brasil, também em Três Lagoas.
Nos próximos anos, o complexo industrial deverá ganhar ainda mais relevância com o início das operações da megafábrica da Arauco, em Inocência, e do projeto da Bracell, em Bataguassu, ampliando significativamente a participação sul-mato-grossense na produção mundial de celulose.
Segundo o estudo, o El Niño pode alterar profundamente os regimes de chuva em diferentes continentes. Enquanto o Sul do Brasil e o Chile podem enfrentar enchentes e dificuldades logísticas, regiões como o Norte e o Nordeste brasileiros e parte da Indonésia tendem a registrar temperaturas elevadas, estiagens prolongadas e maior risco de incêndios florestais.
Esses eventos extremos podem comprometer tanto o crescimento das florestas plantadas quanto o transporte da produção até os portos, reduzindo a disponibilidade da matéria-prima no mercado internacional e pressionando os preços para cima.

Vale da Celulose pode ganhar ainda mais importância
Caso a oferta global diminua, especialistas avaliam que regiões com grande capacidade produtiva e infraestrutura consolidada poderão assumir um papel ainda mais estratégico no abastecimento mundial.
Nesse contexto, o Vale da Celulose desponta como um dos principais ativos da indústria brasileira. A região concentra investimentos bilionários e abriga algumas das maiores plantas industriais do setor, consolidando Mato Grosso do Sul como protagonista da cadeia global de celulose.
Além das operações em funcionamento, a chegada da Arauco e da Bracell deverá elevar ainda mais a capacidade instalada do Estado, fortalecendo sua posição como principal corredor de produção e exportação da commodity na América Latina.
Na avaliação do JPMorgan, Eldorado Brasil e Suzano ganham destaque e reúnem características que reduzem a exposição aos impactos provocados por eventos climáticos extremos. O banco destaca a distribuição geográfica de seus ativos, os baixos custos operacionais e uma estrutura logística diversificada, com acesso a diferentes portos e modais de transporte, fatores que aumentam a capacidade de resposta diante de possíveis interrupções.
Embora o relatório identifique riscos relacionados a estiagens e incêndios florestais em algumas áreas de atuação da companhia, como o Maranhão, esses desafios são considerados menos severos do que aqueles enfrentados por empresas altamente expostas a enchentes.
Logística será fator decisivo
O estudo ressalta que os maiores impactos do provável Super El Niño podem ocorrer não necessariamente nas fábricas, mas no transporte da produção.
Rodovias interditadas, ferrovias interrompidas, alagamentos e restrições em portos podem dificultar o escoamento da celulose, reduzindo temporariamente a oferta mundial.
Por isso, empresas que contam com alternativas logísticas tendem a apresentar maior competitividade em cenários de eventos climáticos extremos.

Preços podem voltar a subir
Após um período de acomodação nas cotações internacionais da celulose, o JPMorgan avalia que uma eventual redução da oferta global poderá provocar uma nova valorização da commodity.
O banco destaca que a indústria historicamente sofre interrupções relevantes de produção em praticamente todos os anos, e um El Niño de grande intensidade pode representar um novo choque de oferta para o mercado.
Segundo a análise, Suzano e a chilena CMPC estão entre as empresas mais sensíveis às oscilações de preços da celulose de fibra curta. A estimativa é que cada aumento de US$ 20 por tonelada gere impacto positivo próximo de 5% no Ebitda dessas companhias.
O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e costuma alterar o clima em diferentes regiões do planeta.
Modelos climáticos internacionais indicam elevada probabilidade de fortalecimento do fenômeno ao longo do segundo semestre de 2026, aumentando a possibilidade de chuvas intensas em algumas regiões e secas severas em outras.
Caso esse cenário se confirme, além dos impactos climáticos, o mercado internacional poderá assistir a uma nova reorganização da cadeia global de celulose — e o Vale da Celulose sul-mato-grossense tende a desempenhar papel ainda mais estratégico nesse processo.


