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Se ninguém quer mais ler notícia, como salvar o jornalismo?

Passei boa parte da minha vida profissional tentando fazer as pessoas pararem para prestar atenção em uma notícia. Já escrevi para jornal impresso imaginando quem estaria do outro lado da página, sentei diante de um microfone de rádio sabendo que alguém poderia estar me ouvindo dentro de um carro ou começando mais um dia de trabalho, fiz televisão, aprendi a contar histórias com imagens, produzi podcasts, trabalhei com comunicação institucional e, mais recentemente, passei a experimentar talvez o lado mais desafiador dessa trajetória: empreender no próprio jornalismo, por meio do Atualiza MS.

Os formatos mudaram, o público mudou e eu também mudei. Mas talvez nunca tenha sido tão necessário fazer uma pergunta incômoda sobre a profissão que escolhi: se tanta gente não quer mais consumir notícias, como vamos salvar o jornalismo?

O Digital News Report 2026, produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, traz um dado que deveria provocar uma longa conversa dentro de qualquer redação: 47% dos brasileiros entrevistados afirmam que, às vezes ou frequentemente, evitam deliberadamente as notícias.

Quase metade. Um número que incomoda especialmente quem passou a vida acreditando que informar é prestar um serviço indispensável à sociedade. Mas existe uma contradição fascinante aí: nunca consumimos tanta informação. Pegamos o celular quando acordamos, recebemos notificações, abrimos o Instagram, entramos no WhatsApp, assistimos a vídeos, ouvimos podcasts dirigindo, vemos cortes de entrevistas durante o almoço, perguntamos alguma coisa à inteligência artificial e compartilhamos conteúdo até o fim do dia.

Talvez, portanto, as pessoas não estejam cansadas da informação. Talvez estejam cansadas da maneira como nós, jornalistas, aprendemos a entregá-la.

Durante décadas, o público precisou se adaptar ao jornalismo. O jornal chegava pela manhã, o noticiário do rádio tinha horário e o telejornal começava quando a emissora determinava. Hoje, a lógica se inverteu: é a notícia que precisa encontrar o público. E precisa encontrá-lo enquanto disputa atenção com absolutamente tudo — entretenimento, memes, amigos, celebridades, influenciadores e uma quantidade praticamente infinita de conteúdo.

Podemos reclamar dos algoritmos, das redes sociais e da suposta falta de interesse das novas gerações por conteúdos profundos. Ou podemos fazer aquilo que jornalistas deveriam saber fazer melhor: observar uma realidade nova, tentar compreendê-la e fazer perguntas.

Outro dado do mesmo relatório ajuda nessa reflexão. No Brasil, 33% das pessoas já dizem receber conteúdo de creators ou influenciadores dedicados principalmente às notícias. Paralelamente, um levantamento do próprio Reuters Institute com lideranças da indústria de mídia mostrou que 76% pretendem incentivar seus jornalistas a se comportarem mais como creators.

Isso diz muito sobre o momento que estamos vivendo. Durante anos, grandes empresas jornalísticas construíram marcas poderosas e colocaram seus profissionais atrás delas. Agora descobrem que o público também quer pessoas. Quer rosto, voz, identidade e, principalmente, confiança em quem está contando aquela história.

Não considero isso uma ameaça ao jornalismo. Pode ser justamente uma oportunidade.

Quando comecei na profissão, não existia essa obsessão por seguidores, engajamento ou visualizações. Nossa preocupação era conseguir a informação. Eu era repórter. Perguntava, insistia, ligava novamente quando não atendiam e voltava quando diziam que não poderiam falar.

Certa vez, ainda no começo da carreira, minha insistência para que um delegado explicasse uma investigação o incomodou tanto que ouvi dele que adoraria “me encontrar por aí”. Era uma maneira pouco sutil de mandar aquele jovem repórter parar de perguntar.

Não parei.

Anos depois, em Bauru, durante a cobertura de uma denúncia de trabalho escravo, eu e o cinegrafista Sérgio Bronzatto fomos detidos por funcionários da fazenda investigada e ameaçados de morte. Já em Três Lagoas, durante um protesto de caminhoneiros, eu e meu amigo e cinegrafista Odimar Borges fomos cercados, insultados e ameaçados. Queriam tomar nossos equipamentos e havia risco real de agressão física. Por sorte, saímos ilesos.

Não conto essas histórias para romantizar o perigo — jornalista algum deveria ser ameaçado simplesmente por fazer perguntas. Conto porque elas me lembram constantemente o que existe no coração desta profissão: curiosidade, persistência e a vontade quase teimosa de saber.

É justamente isso que não podemos perder enquanto discutimos inteligência artificial, creators, algoritmos e novas plataformas. Não há nada de errado em um jornalista construir sua própria audiência, gravar um Reel, apresentar um podcast, escrever uma newsletter ou conversar diretamente com seus seguidores. Eu mesmo faço parte dessa transformação.

Empreender no Atualiza MS me ensinou algo que talvez uma redação tradicional jamais tivesse conseguido ensinar com a mesma intensidade: uma notícia pode ser jornalisticamente importante e, ainda assim, fracassar completamente na tentativa de alcançar as pessoas. Portanto, não basta publicar; precisamos ser lidos. Não basta informar; precisamos ser compreendidos. E não basta produzir conteúdo; precisamos criar conexão.

Isso não significa transformar jornalismo em entretenimento barato ou trocar relevância por audiência. Significa compreender que clareza, criatividade e capacidade de comunicação também fazem parte do nosso trabalho. Uma reportagem escrita com profundidade pode ser excelente jornalismo, assim como um vídeo de um minuto ou um podcast de uma hora. O formato não determina a qualidade. O método, sim: apuração, contraditório, contexto, responsabilidade e ética.

Talvez esteja justamente aí uma das grandes confusões do nosso tempo. Influência e jornalismo passaram a ocupar o mesmo ambiente digital, mas não são sinônimos. Ter milhões de seguidores não transforma alguém automaticamente em jornalista, da mesma forma que possuir um site não faz de qualquer publicação jornalismo. Nossa profissão pressupõe método e responsabilidade.

Essa diferença será ainda mais importante diante da inteligência artificial generativa, das imagens sintéticas, dos vídeos manipulados e das vozes clonadas. Quando qualquer pessoa puder fabricar uma realidade convincente em poucos segundos, saber em quem confiar poderá ser muito mais importante do que saber onde clicar.

Por isso, paradoxalmente, acredito que o jornalista poderá se tornar ainda mais necessário. A credibilidade tende a ser um dos maiores patrimônios da comunicação do futuro. Leva anos para ser construída e pode desaparecer em uma única publicação irresponsável.

Há ainda uma dimensão dessa discussão que me interessa especialmente: o jornalismo local. Enquanto grandes veículos procuram maneiras de reconstruir a conexão com suas audiências, quem trabalha no interior conhece há muito tempo o valor da proximidade. Aqui, o leitor encontra o jornalista no supermercado. O empresário entrevistado ontem estará no evento de amanhã. O prefeito criticado em uma reportagem poderá sentar ao seu lado em uma solenidade. E a pessoa cuja história você contou pode pará-lo na rua para agradecer — ou reclamar.

Essa proximidade cobra responsabilidade, mas também cria algo que nenhuma tecnologia consegue fabricar: pertencimento.

É por isso que acredito tanto no futuro dos veículos regionais. Conhecemos nossas cidades, empresas, problemas e potencialidades. Sabemos por que a chegada de uma indústria pode transformar a economia de um município, o que representa uma nova estrada, um hospital, uma universidade, uma decisão política ou uma oportunidade de emprego. Em Mato Grosso do Sul, onde acompanhamos uma transformação econômica impressionante, contar adequadamente o avanço da celulose, do agronegócio, da logística, da energia, da inovação e dos novos investimentos exige muito mais do que reproduzir informações. Exige estar aqui.

E talvez seja essa uma das chaves para o futuro da nossa profissão.

O algoritmo sabe que Três Lagoas existe. O jornalista que vive aqui sabe o que Três Lagoas significa.

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Por isso, quando vejo que quase metade dos brasileiros afirma evitar notícias, não interpreto o dado apenas com pessimismo. Prefiro enxergá-lo como um alerta. Talvez seja a sociedade dizendo ao jornalismo que alguma coisa precisa mudar. Precisamos ouvir mais, explicar melhor, humanizar nossas histórias, abandonar a linguagem burocrática, experimentar formatos, estar onde o público está e reconquistar sua confiança.

Passei pelo impresso, rádio, televisão, assessoria, podcast, portal de notícias e redes sociais. A cada transformação tecnológica, alguém anunciou a morte de alguma coisa. O rádio sobreviveu. A televisão sobreviveu. O texto sobreviveu. E o jornalismo também sobreviverá — provavelmente não da maneira como o conhecemos hoje, e tudo bem.

Nossa missão nunca foi proteger formatos. Nossa missão sempre foi contar histórias.

Se 47% dos brasileiros estão evitando notícias, talvez nossa resposta não deva ser reclamar do público. Talvez seja hora de fazer aquilo que cobramos diariamente das pessoas e instituições sobre as quais escrevemos: olhar para nós mesmos, reconhecer o que mudou e ter coragem para mudar também.

Porque talvez a grande questão não seja como salvar o jornalismo.

Talvez seja como fazer o jornalismo voltar a ser algo que as pessoas sintam que não podem perder.

Se conseguirmos isso, pouco importará se a próxima grande história chegar impressa em papel, pela tela de um celular, em um podcast, por um vídeo ou em algum formato que ainda nem foi inventado.

Enquanto houver alguém querendo saber e outro alguém disposto a perguntar, apurar e contar, haverá jornalismo.

Por: Rogério Granado Potinatti

1 Comment

  1. Como salvar o jornalismo em tempos de desinteresse pela notícia? - MS Inteiro

    agosto 6, 2026

    […] Se ninguém quer mais ler notícia, como salvar o jornalismo? […]

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