Existe uma diferença entre descobrir algo novo e reconhecer que aquilo faz sentido para nós.
Às vezes, precisamos sair do roteiro habitual. Conhecer lugares diferentes, conversar com pessoas que não fazem parte do nosso círculo, experimentar atividades que nunca estiveram entre nossas preferências. Permitir que a vida nos surpreenda um pouco.
E isso pode ser muito bom.
Há experiências que nos despertam, que ampliam nossa percepção e nos apresentam possibilidades que nem sabíamos existir. Outras nos mostram que somos mais flexíveis do que imaginávamos. Podemos gostar de algo que nunca havíamos considerado, descobrir interesses inesperados e nos permitir viver sem precisar ter todas as respostas antes de começar.
Mas existe uma parte dessa descoberta que acontece depois.
Quando a experiência termina, quando o barulho diminui e voltamos ao nosso cotidiano, podemos perceber o que permaneceu em nós.
O que despertou entusiasmo? O que trouxe leveza? O que nos fez sentir vivos? E o que, apesar de ter sido interessante, não despertou o desejo de permanecer?
Nem toda experiência precisa se transformar em hábito. Nem todo encontro precisa se tornar vínculo. Nem todo lugar que visitamos precisa se tornar um lugar ao qual desejamos voltar.
Algumas experiências têm valor justamente pelo que nos revelam, não pela continuidade que terão.
Podemos gostar de conhecer um lugar sem desejar fazer dele a nossa casa.
E talvez essa seja uma das aprendizagens mais importantes do autoconhecimento: compreender que experimentar não significa assumir um compromisso com aquilo que experimentamos.
Quando a descoberta se transforma em autoconhecimento
Existe uma tendência a interpretar nossas escolhas como declarações definitivas sobre quem somos.
Se gostamos de alguma coisa, imaginamos que precisamos continuar gostando. Se experimentamos um estilo de vida, podemos sentir que precisamos sustentá-lo. Se começamos algo novo, às vezes acreditamos que mudar de ideia significa fracassar ou voltar atrás.
Mas quem somos não precisa ser uma identidade rígida, incapaz de se movimentar.
Podemos nos permitir experimentar sem precisar provar nada. Podemos descobrir que gostamos de algo e, ainda assim, não desejar aquilo com frequência. Podemos perceber que determinada experiência foi boa, mas que outras formas de viver continuam fazendo mais sentido para nós.
Isso não diminui o valor do que vivemos. Ao contrário, amplia nossa capacidade de escolher com consciência.
O problema não está em mudar de ambiente, experimentar uma novidade ou descobrir uma versão diferente de nós mesmos. A questão é perceber se estamos fazendo isso por curiosidade genuína, por prazer, por vontade de ampliar a vida ou se, em algum momento, começamos a buscar nessas experiências uma confirmação de que somos interessantes, desejáveis ou suficientes.
Essa diferença nem sempre é fácil de reconhecer.
Às vezes, acreditamos estar escolhendo livremente, quando estamos tentando corresponder a uma expectativa. Outras vezes, deixamos de experimentar algo que poderia nos fazer bem porque temos medo de sair da imagem que construímos de nós mesmos.
Em ambos os casos, vale a pena olhar com mais cuidado.
Não para julgar nossas escolhas, mas para compreender o que existe por trás delas.
E quando precisamos da ajuda de alguém para enxergar?
O autoconhecimento não acontece apenas quando estamos em sofrimento.
Também podemos buscar compreender a nós mesmos quando a vida está acontecendo, quando estamos conhecendo pessoas, ampliando experiências, revendo preferências e percebendo que algumas certezas já não são tão definitivas.
É nesse processo que a terapia pode ocupar um lugar importante.
O processo terapêutico oferece um espaço para observar nossas escolhas sem precisar justificá-las o tempo todo. Um espaço para reconhecer desejos, contradições, expectativas e necessidades que, na correria cotidiana, nem sempre conseguimos escutar.
Não se trata de encontrar uma versão definitiva de quem somos. Tampouco de receber de outra pessoa uma resposta sobre como devemos viver.
Trata-se de desenvolver mais intimidade conosco.
Às vezes, descobrimos que determinada escolha realmente combina com quem somos. Em outras ocasiões, percebemos que estávamos tentando preencher um vazio, corresponder a uma expectativa ou encontrar no olhar de alguém uma confirmação que ainda não conseguíamos oferecer a nós mesmos.
E tudo bem perceber isso ao longo do caminho.
O importante é que a descoberta não se transforme em mais uma cobrança. O autoconhecimento não precisa ser uma investigação permanente em busca de defeitos, nem uma tentativa de controlar cada emoção antes de viver.
Podemos viver primeiro e compreender depois. Podemos experimentar, sentir, refletir e, então, escolher com mais consciência.
A vida não precisa esperar que estejamos completamente resolvidos para acontecer.
E que tal uma pausa para processar?
Antes de tentar definir o que combina ou não com você, experimente observar suas experiências recentes com curiosidade.
Sem julgamentos. Sem precisar chegar imediatamente a uma conclusão.
Pergunte-se:
- O que tenho experimentado ultimamente que me trouxe alegria, leveza ou entusiasmo?
- Em quais situações me sinto verdadeiramente à vontade para ser quem sou?
- Existe alguma coisa que continuo fazendo mais para corresponder a uma expectativa do que por vontade própria?
- O que descobri sobre mim a partir de uma experiência que, inicialmente, parecia apenas uma novidade?
- Tenho permitido que minhas preferências mudem sem interpretar isso como incoerência?
E talvez a pergunta mais importante seja:
Se eu não precisasse provar nada a ninguém, o que escolheria continuar vivendo e, o que me permitiria deixar apenas como uma boa experiência?
Não é necessário responder a tudo agora.
Algumas respostas chegam quando diminuímos a pressa de defini-las.
Para levar com você
A vida pode ser um território de descobertas. Podemos atravessar fases, conhecer pessoas, frequentar lugares, experimentar possibilidades e nos surpreender com aquilo que encontramos pelo caminho.
Não precisamos permanecer iguais para sermos coerentes com quem somos.
Talvez a coerência não esteja em repetir sempre as mesmas escolhas, mas em desenvolver a capacidade de reconhecer o que faz sentido em cada etapa da vida.
Existe liberdade em descobrir que gostamos de algo que antes não conhecíamos. E existe liberdade, também, em reconhecer que algo não é para nós, mesmo depois de termos experimentado.
Uma experiência não precisa durar para ter valor. Uma descoberta não precisa se transformar em destino. E mudar de direção não significa, necessariamente, ter se perdido.
Às vezes, precisamos ir um pouco mais longe para perceber o que realmente nos aproxima de nós mesmos.
Outras vezes, basta olhar para o caminho que percorremos e reconhecer que não precisamos continuar em todos os lugares por onde passamos.
Conhecer o mundo pode ampliar nossos horizontes. Conhecer a nós mesmos nos ajuda a escolher por onde queremos seguir.
E talvez seja isso que algumas experiências estejam tentando nos mostrar, não precisamos nos limitar ao que já conhecemos, mas também não precisamos nos tornar tudo aquilo que experimentamos.
Podemos explorar a vida sem abandonar a nós mesmos.
Podemos descobrir o novo e, ainda assim, reconhecer o valor daquilo que já faz sentido.
Podemos ir, conhecer, sentir e voltar.
Não porque o mundo lá fora não tenha nada a nos oferecer, mas porque, aos poucos, aprendemos a distinguir o que nos desperta curiosidade daquilo que verdadeiramente desejamos cultivar.
E você, já viveu alguma experiência que, em vez de mudar quem você era, ajudou a reconhecer com mais clareza quem você é?
Talvez essa seja uma pergunta que valha a pena levar para os próximos caminhos.
O que isso quer me mostrar sobre mim?
Sua jornada não precisa ser solitária.
Meu coração saúda o seu coração.
Vamos juntos?
Por: Pamella Schëfer
Terapeuta | Criadora do Método M.A.S.






